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31 de ago de 2013

...e esvai-se o pensamento


...e esvai-se o pensamento,
nesta torrente de mar salso,
onde voga
o desalento,
sem transporte que o firme
ou aguente,
neste rio de águas mansas, calmas,
a caminho do sacro lago,
onde desemboca a cachoeira
e há plantas por todo o lado...

...uma nova forma
e primavera de vida !

Ai, quem me dera
ir de partida,
para essa terra
onde o rio canta,
assobia e dança
com alegria,
quase quimera...

...esta torrente de mar salso...
ai, quem ma dera !...

Nìdia Horta
Oeiras em Agosto - 2013

''PERDIDA NO TEMPO''


... Meu corpo é trevo
e pelos meus dedos
soletro o tempo amargo,
nas páginas secretas
deste livro fechado,
com estampadas borboletas desbotadas,
e as asas de aladas borboletas...

Minha alma perdida em labirinto,
que ninguém encontrou,
nem achei, sequer... saída redentora...

Minha alma...ninguém viu!

Só existe estampada
nas páginas secretas
deste «livro» infinito
qu´inda ninguém abriu ! ...


MARIA LEONOR DE MELLO HORTA

''Porque Deus assim o quis''


Porque Deus assim o quis, sou algarvia...
Ao nascer, mergulhei meus pés nas águas mornas,
quentes, doces, maravilhosas deste mar...

De pequenina , enterrei meus dedos
na areia mágica, doirada,
deixando-a escorregar...

Lânguida, mergulhei meu corpo de mulher
no verde-acinzentado- azulino-esmaltado
deste oceano, sem rival, sem par...

E as ondas me acarinharam,
me envolveram
e com doçura me beijaram...

Com volúpia de amor, escutei segredos,
dados à socapa , pelos rochedos,
nas manhãs soalheiras, calorosas...

Pelos alcantis agrestes
colhi as flores de amendoeira
colhi amoras silvestres...

E...fui vivendo em sonho,
nesta terra de Al-Garb,
das moiras...das feiticeiras...

Nìdia Horta
(In: «SiINFONIA» - livro de poemas -de Nidia Horta)

28 de ago de 2013

ESPAÇO

ESPAÇO

Deito-me no
teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e
velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o
tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.


Albano Martins
in:Em Tempo

ENQUANTO

ENQUANTO

o amor,enquanto a morte
Enquanto aguardas
e as urnas vazias
recolhem a poeira do verão.
Enquanto,
já submissos, os touros
do sol a soturnos
desígnios entregam
seu furor.
Enquanto,
sob a casa, agora
as térmitas repousam, momentanea
mente reverdecem
meus eucaliptos de água
e ouro.
Enquanto
o amor.
Enquanto
a morte.
Enquanto.


Albano Martins
in:Os
Remos Escaldantes(1983)

ENTRAS

ENTRAS

em mim descalça, vulnerável
como um alvo próximo, ferida
nos joelhos e nas coxas. Pelo tacto
nos conhecemos, é essa luz
oblíqua que nos cega. E te pertenço
e me pertences como
a lâmina
à bainha, a chama
ao pavio.


Albano Maritns

ELEGIA

ELEGIA

em forma de epístola

A circunstância de sermos homem e mulher
presos por uma aliança tácita
e secreta
do sangue
é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva.
Nascemos sem
passaporte,
entre fronteiras guardadas
por sentinelas de sal e de silêncio.
O rio da história
corre, estrangulado, entre as pedras,
e o cascalho, e os detritos humanos,
e a alegria suicida das coisas limpas e puras
abandonadas e soltas à vertigem da morte.
Construímos
para nossa defesa
um muro de ironia e de sarcasmo
– imponderável cortina
de humana ternura envergonhada
ou, como tu dizes, perseguida.
O silêncio
é a corda
que nos prende aos mastros,
a antena vegetal por onde
a vida se insinua,
universal e atenta.
Marinheiros
duma pátria
ancorada no tempo,
bebemos o sal dos minutos que passam
e adormecemos, hirtos, de costas para o mar.


Albano Martins
in:Coração
de Bússola(1967)

DÊEM-ME

DÊEM-ME

um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.
Dêem-me
a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.


Albano Martins
in:Vertical
o Desejo(1985)

CREPÚSCULO DE AGOSTO

CREPÚSCULO DE AGOSTO

Para a minha filha

Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, teus ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.

Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tato.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.


Albano Martins

CONCITAS PARA

CONCITAS PARA

os ritos
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.

Albano Martins

COMO UM ARCHOTE

COMO UM ARCHOTE

Vem tudo à superfície.
Como se
dentro da casa
um maremoto levantasse
as pedras todas, uma a uma; como se
no centro, iluminadas,
as esferas rodassem
no seu eixo — tudo
de repente se inclina, tudo arde
nesta fogueira acesa
como um archote de sangue, uma lua
de enxofre.

Albano Martins

...

...

Como um
livro
Folheei o
teu corpo como um livro
à procura da tua alma : encontrei-a no índice.


Albano Martins

AS PALAVRAS

AS PALAVRAS

em trânsito
Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.


Albano Martins

AQUI COMEÇAM

AQUI COMEÇAM

todas
as doenças. A do feno
e seus alvéolos furtivos, a da lepra
das palavras traídas, nunca
usadas. E as maleitas
da pele, a insanável
maresia da língua.


Albano Martins

A LÂMINA, O PUNHAL


A LÂMINA, O PUNHAL

Não haverá futuro — e haverá
somente esta lâmina
de quartzo lacerando
a carne amarrotada. E haverá
somente este punhal
de cinza cravado
entre almofadas inúteis
e lençóis vazios.


Albano Martins

ALBANO MARTINS

ALBANO MARTINS

Nasceu em 6 de agosto de 1930 na aldeia do Telhado (e não, como consta do seu registro de nascimento, em Póvoa de Atalaia), Concelho do Fundão, distrito de Castelo Branco, província da Beira Baixa, Portugal.

Licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi professor do Ensino Secundário de 1956 a 1976.

Tendo ingressado, em 1980, nos quadros da Inspeção-Geral de Ensino, passou, em 1993, à situação de aposentado. Presentemente, é professor na Universidade Fernando Pessoa, do Porto.

É autor dos seguintes livros de poesia :

Secura Verde , Coleção "Germinal", Porto, 1950
Coração de Bússola , Coleção "Daimon", Évora, 1967
Em Tempo e Memória , Ed. do Autor, Viseu, 1974
Paralelo ao Vento , Ed. " O Oiro do Dia", Porto, 1979
Inconcretos Domínios , Ed. "Nova Renascença", Porto, 1980
A Margem do Azul , Ed. do Autor, Porto, 1982
Os Remos Escaldantes , Ed. "O Oiro do Dia", Porto, 1983
Sob os Limos , Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Porto, 1986
Poemas do Retorno , Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo, 1987
A Voz do Chorinho ou os Apelos da Memória , Editorial Caminho, Lisboa, 1987
Vertical o Desejo , Galeria Nasoni Edições, Porto, 1988
Rodomel Rododendro , Quetzal Editores, Lisboa, 1989
Vocação do Silêncio , Poesia 1950-1985 (inclui o livro inédito As Vogais Aliterantes ), Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1990
Os Patamares da Memória , Limia, Colecção "Ícone", Viana do Castelo, 1990
Entre a Cicuta e o Mosto , Átrio, Coleção "O Lugar da Pirâmide", Lisboa, 1992
Uma Colina para os Lábios , Ed. Afrontamento, Porto, 1993
Com as Flores do Salgueiro , Edições Universidade Fernando Pessoa, Porto, 1995
O Mesmo Nome , Editora "Campo das Letras", Porto, 1996
Como tradutor, atividade a que vem dedicando algum do seu tempo, tem publicadas as seguintes obras :

O Essencial de Alceu o Safo , Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1986
Cantos, de Giacomo Leopardi , Editora Vega, Lisboa, 1986
Cântico dos Cânticos , de Salomão, Cooperativa Árvore, Porto, 1988
Dez Poetas Gregos Arcaicos , Editora D.Quixote, Coleção "O Aprendiz de Feiticeiro", Lisboa, 1991
Dez Poetas Italianos Contemporâneos , Editora D.Quixote,Coleção "O Aprendiz de Feiticeiro", Lisboa, 1992
Os Versos do Capitão , de Pablo Neruda, Editora "Campo das Letras", Porto, 1996


Traduziu igualmente, achando-se publicados avulsamente ou em vias de publicação, poemas dos seguintes autores espanhóis : Carmen Conde, Juan Ramón Jiménez, Pedro Salinas, Jorge Gillén, Rafael Alberti, Manuel Altolaguirre, Gerardo Diego, Francisco Brines e Pere Gimferrer.

Organizou, para a Imprensa Nacional-Casa da Moeda (Lisboa, 1987), uma Antologia do poeta simbolista português Eugénio de Castro, antecedida de um prefácio, de sua autoria.


Poemas seus estão incluídos em diversas antologias e volumes de carácter colectivo, designadamente :
Poesia 70 , Editorial Inova, Porto, 1971 800 Anos de Poesia Portuguesa , Círculo de Leitores, Lisboa, 1973 Terra : Porto , Exercício de Dizer, Porto, 1981 A Ilha dos Amores , A.J.H.L.P. , Porto, 1984 Rosalírica , Ediciós de Castro, A Corunha, 1985 Olhos de Orfeu , A.J.H.L.P. , Porto, 1985 Rio Interior , Limiar, Porto, 1986 Aproximação ao Silêncio , O Oiro do Dia, Porto, 1987 Escritores Modernos da Beira Baixa , 1988 Antologia de Homenagem a Cesário Verde , Oeiras, 1991 Onde o Mar Acaba , D. Quixote, Lisboa, 1991 Uma Pequena Onda (20 artistas e 20 escritores), Porto, 1991 Poetas Escolhem Poetas , Lello & Irmão Editores, Porto, 1992 Retratos para Miguel Torga , Instituto Erasmus, Porto, 1994 Uma Rã Que Salta , Limiar, Porto, 1995 Cântico Em Honra de Miguel Torga , Fora do Texto, Coimbra, 1996 O Poeta e a Cidade , Editora "Campo das Letras", Porto, 1996 Tem colaboração, em prosa e verso, dispersa por numerosos jornais e revistas, do país e do estrangeiro, nomeadamente : a) Jornais : O Comércio do Porto, O Diário, Diário de Coimbra, Diário de Lisboa, Diário do Norte, Diário Popular, Évora & o Mais, Jornal do Fundão, JL - Jornal de Letras Artes e Ideias, Jornal de Notícias, Jornal Notícias de Gaia, Letras & Letras, Matosinhos Hoje, O Primeiro de Janeiro, A Reconquista, Sempre. b) Revistas : Agália (Orense), Árvore, Bibliotheca Portucalensis , Cadernos de Literatura, Canente (Málaga), A Cidade, Colóquio/Letras, La Cuerda del Arco (Sevilla), O Escritor, Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), Hífen, A Ideia, Luzes de Galiza (A Corunha), Mealibra, Nordés (Vigo), Nova Renascença, Palimpsesto (Carmona, Sevilla), Poesia Sempre (Rio de Janeiro), Revista Brasileira de Língua e Literatura (Rio de Janeiro), Seara Nova, Sílex, Sirgo, Sol XXI, Sul (Brasil). Foi secretário da redacção da revista portuense "Nova Renascença" e membro da comissão de honra e do conselho coordenador, além de assessor, do jornal literário, também portuense, "Letras & Letras". Participou em diversos congressos, no país e no estrangeiro, designadamente, desde 1985, em nove dos dez Congressos Brasileiros de Língua e Literatura promovidos, a partir daquela data, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pela Sociedade Brasileira de Língua e Literatura, sob a presidência do Prof. Leodegário A. de Azevedo Filho. Durante a realização de tais congressos, a sua poesia não só foi objecto de análise em mesas - redondas integradas por professores universitários brasileiros e portugueses, como ainda em cursos a ela exclusivamente dedicados e ministrados em paralelo com a realização daqueles. O XXI dos referidos congressos, realizado em Julho de 1989, foi especialmente dedicado aos seus "40 Anos de Vida Literária", que passavam naquele mesmo ano. É membro da Associação Portuguesa de Escritores, do P.E.N. Clube Português, da Associação Portuguesa de Tradutores, da Associação Galega da Língua (AGAL) e Membro Honorário da Academia Cabofriense de Letras (Estado do Rio de Janeiro). Integrou, no início da década de 80, juntamente com os poetas Alberto de Serpa, Fernando Guimarães, José Augusto Seabra e Saul Dias, a Comissão Instaladora do Museu Nacional de Literatura, sediado no Porto, e, entre 1983 e 1989, foi membro da direcção da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Em 1987, foi-lhe atribuído o Prémio de Tradução instituído pela Sociedade de Língua Portuguesa, de Lisboa, a pretexto da publicação, no ano anterior, dos volumes O Essencial de Alceu e Safo e Cantos, de Giacomo Leopardi, e, em 1993, o "Prémio Eça de Queirós" de Poesia, da Câmara Municipal de Lisboa, pelo seu livro Uma Colina para os Lábios. Gostou? Citar [מריה מגדלנה Maria Madalena] מריה מגדלנה Maria Madalena - 17/11/2008 Em 1986, aquando da realização do XVIII Congresso Brasileiro de Língua e Literatura, foi-lhe atribuída, pela Sociedade Brasileira de Língua e Literatura, do Rio de Janeiro, a medalha Oskar Nobiling, de mérito cultural. Poemas seus estão traduzidos em espanhol, inglês, chinês (cantonense) e japonês. A sua obra tem merecido a atenção de alguns dos mais importantes críticos e ensaístas portugueses contemporâneos, nomeadamente António Cândido Franco, António Ramos Rosa, Eduardo Lourenço, Eduardo Prado Coelho, Fernando Guimarães, Fernando J. B. Martinho, Fernando Pinto do Amaral, Luís Adriano Carlos, Maria da Glória Padrão, Maria Lúcia Lepecki, Ramiro Teixeira, Salvato Trigo, Serafim Ferreira, Vera Vouga, Vítor Manuel de Aguiar e Silva, etc., e também de alguns brasileiros, tais como : Álvaro Cardoso Gomes, António Roberval Miketen, Franca Berquó, Gumercinda Gonda, Leodegário A. de Azevedo Filho, Nelly Novaes Coelho e Raquel Marques Villardi.

27 de ago de 2013

PALAVRAS

 


PALAVRAS

Palavras, atirei-as
Como quem joga pedras, lança flores.
Abriram fendas nas areias,
Suscitaram carícias e furores.

Sobre mim recaíram
Pesada de multíplices sentidos.
Tenho os lábios que um dia as proferiram
E os dedos que as gravaram - já feridos.

Tintas de sangue as restituo aos ventos,
Prestidigitador que sou de sons, palavras.
Dá-lhes novos alentos,
Fogo sonoro que em mim lavras!
Errantes lá pra solidões imensas
Com asas no seu peso, à recaída,
Me tragam, ágeis, densas,
A resposta final que me é devida.

José Régio

AUSÊNCIA

AUSÊNCIA

Um a um, vão-se-me os dias,
Dia a dia, eu vou com eles…
Olhos extintos, mãos frias,
Perpasso ao longo dos dias
Como sombra que repeles…

E porquê? Porque me deixas
Nesta frieza, em que forças
Nem tenho para erguer queixas
Cujo alívio me nem deixas,
Ou contra mim já não torças…?

Não me vês Tu sofrer tanto
Quanto gostas de me ver?
Ou não sei eu, por enquanto,
Valer-me de sofrer tanto
Para chegar a vencer?

No entanto, vão-se-me as horas
Num sofrer tudo o que passa,
Só porque Tu Te demoras
A atirar às minhas horas
Uns restos da Tua graça…

Levanto os olhos lá cima,
Sondo esse abismo estrelado,
Baixo-os ao chão…, e o que anima
Esse abismo lá de cima
Anima a colina e o prado:

Ao Teu simples ígneo sopro,
Abrem-se os astros, as flores,
E as cavernas como a escopro…
Encapelam-se, ao Teu sopro,
Vento e mar com seus furores…

Só a mim me não aqueces
Com as bênçãos do Teu bafo!
Só dum ser vivo Te esqueces,
E este ar, que já não aqueces,
Me não é ar, e eu abafo…

Fosse eu pedra bruta! Fosse
Uma pouca de água! Um bicho
Sem razão, feroz ou doce,
Que virias!, nem que eu fosse
Qualquer montinho de lixo…

Fosse eu terra…, e dera flor!
Fosse eu ar, mar… gozaria
No sol Teu próprio calor!
Que o céu dá sóis e o chão flor
Porque o Teu amor lhos cria…

Mas sou este ser humano
A quem deste alma, razão,
Coração, vontade… e o engano
De sonhar ser mais que humano,
Contra a humanal condição!

E é por ser mais, que me deixas
Na solidão em que estou?
Por ser Teu filho, me fechas
Assim só comigo, e deixas
Entregue ao não-ser que sou?

Não posso! Que farei au,
Tua obra-prima falhada,
Que acusa quem na escreveu
De lhe dar o que lhe deu
E a deixar não terminada?

Desde que Te amo, não sei
Com nada mais contentar-me!
Onde estarei? onde irei?
Desde que Te amo que sei
Que é tudo o mais vão alarme…

Corra que não corra o mundo,
Só sobre mim próprio giro
Se mais encontrar, ao fundo
Dos mil caminhos do mundo,
Que um eu contra quem me firo…

 Qualquer jornada que faça,
Qualquer empresa que tente,
Se me falha a Tua graça,
Faça o que faça ou não faça,
Que faço que me contente?

Amar-me, já o não consigo;
Fugir-me a mim, não no alcanço;
Não suporto estar comigo!
Se consigo ou não consigo,
Da mesma maneira canso…

Toda a largueza do mundo
Não me cura a falta de ar!
Sufoco!, neste profundo
Buraco negro do mundo
Que só Tu vens alargar…

E Tu não vens! E há que dias,
Há que séculos, Te espero,
De olhos extintos, mãos frias,
Sem nada que me encha os dias
Senão frio e desespero!

Fervem-me no peito as queixas,
As blasfémias, o clamor
Do abandono em que me deixas…
Mas gritos, blasfémias, queixas
Bem sabes que é tudo amor!

Bem sabes como é verdade
Que nada Te substitui,
Ou Te empana a claridade,
Em quem, por ver a Verdade,
Já tudo em volta lhe rui…

Ai, que os irmãos me não creiam,
É de crer! pois lhes advém
Que soletrem mas não leiam,
E só creiam, ou não creiam,
Consoante lhes convém.

Mas Tu, que me vês por dentro
Como eles vêem por fora,
Tu, em cujo amor eu entro
Nu até alma, por dentro
Dum banho lustral de aurora,

Tu, ─ não! não podes deixar-me
Sem Ti, nem nada no mundo!
Para quê todo este alarme?
Mas como é que ousas deixar-me
Sequer um breve segundo?

Pois não vês que já pertences
Ao amor com que me enleias?
Não me enleies, ou não penses
Que eu, sim, mas Tu não pertences
Às nossas comuns cadeias!

Livra-me de Ti de vez,
Se Te não queres cativo
Do meu amor! Ou não vês
Que isto é nem morrer de vez
Nem, também, sentir-me vivo?

Em Ti, por Ti amo tudo!
Se Te vais e em vão Te chamo,
Fico cego, surdo, mudo…
Faltas-me e falta-me tudo,
Que afinal só a Ti amo!

Pois bem, deitar-me-ei por terra,
Nu no chão nu, sem conforto
Senão o cinto que enterra
Seus férreos dentes na terra
De minha carne e meu corpo,

Deitar-me-ei dias e noites,
Não provarei água ou pão,
Fustigar-me-ei com açoites,
Encherei dias e noites
Gritando a Tua traição,

Até que venhas! Até
Que, de novo, a Tua graça
Me dê calor, luz, ar, fé,
Me ressuscite! ou até
Tudo que sou se desfaça

José Régio

DEMASIADO HUMANO

DEMASIADO HUMANO

Escancarei, por minhas mãos raivosas,
As chagas que em meu peito floresciam.
Versos a escorrer sangue eis escorriam
Dessas chagas abertas como rosas…

Assim vos disse angústias pavorosas
Em versos que gritavam… ou sorriam.
Disse-as com tal ardor, que todos criam
Esse rol de misérias fabulosas!

Chegou a hora de cansar…, cansei!
Sabei que as chagas todas que aureolei
São rosas de papel como as das feiras.

Que eu vivo a expor minh’alma nas estradas,
Com chagas inventadas retocadas…
Para esconder bem fundo as verdadeiras.

José Régio

SABEDORIA

SABEDORIA

Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.

José Régio

ADEUS

ADEUS

Vai-te, que os meus abraços te magoaram,
E o meu amor não beija!, arde e devora.
Foram-se as flores do meu jardim. Ficaram
Raízes enterradas, braços fora...

Vai-te! O luar é para os outros; e os afagos
São para os outros..., os que ensaiam serenatas.
Já a lua que nos lagos boia pérolas e pratas
Não nasce para mim, que estou sem lagos.

Quando me nasce, é como um reluzir da treva,
Um riso da escuridão,
Que na minh'alma ecoa, e que ma leva
Por lonjuras de frio e solidão...

Vai-te, como vão todos; e contentes, de libertos
Do peso de eu lhes não querer trautear mentiras.
Como serias tu, flébil flor de olhos de safiras,
Que me acompanharias nos desertos?

Vai-te! não me supliques que te minta!
Beijo-te os pés pelo que me oferecias.
Mas teu amor, e tu, e eu, e quanto eu sinta,
Que somos nós mais do que fantasias?

Sim, amor meu: em mim, teu amor era doce.
Premir na minha mão a concha nácar do teu seio
Era-me um bem suave enleio...
Era... — se o fosse.

Vai-te!, que eu fui chamado a conquistar
Os mundos que há nos fundos do meu nada.
Talvez depois reaprenda a inocência de amar...
Talvez... mas ai!, depois de que alvorada?

Porque até Lá, é longe; e é tão incerto,
Tão frio, tão sublime, tão abstrato, tão medonho...
Como dar-te a sonhar este sonho dum sonho?

— Vai-te! a tua casa é perto.

José Régio

BONECO DESFEITO

BONECO DESFEITO

Surgiu no palco, um dia um bailarino,
Surgiu soberbamente nu, - jogando
Nas mãos ageis de clown e de menino
Cem máscaras rodando, rodopiando...

Sobre um décor violento e sibilino
Cegamente bailou, tombou bailando,
Como se mais não fora seu destino
Que os eu bailado altivo e miserando.

No palco jaz agora um mutilado:
Jaz morto e nu, decapitado, olhado
Por milhões de olhos sem pudor nem vista.

...Que as máscaras sem fim que ele jogara
Não eram mais, talvez, que a própria cara
Dum desgraçado e humano ilusionista!

José Régio

SONETO DO AMOR

SONETO DO AMOR

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a vida exprimir-se sem disface

José Régio

CÂNTICO

CÂNTICO

Num impudor de estátua ou de vencida,
coxas abertas, sem defesa... nua
ante a minha vigília, a noite, e a lua,
ela, agora, descansa, adormecida.

Dos seus mamilos roxo-azuis, em ferida,
meu olhar desce aonde o sexo estua.
Choro... e porquê? Meu sonho, irreal, flutua
sobre funduras e confins da vida.

Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos...
enquanto o luar a numba, inerte, gasta
da ternura feroz do meu amplexo.

Cantam-me as veias poemas nunca feitos...
e eu pouso a boca, religiosa e casta,
sobre a flor esmagada do seu sexo

José Régio

NARCISO

NARCISO

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
...Lá no fundo do poço em que me espelho

José Régio

SARÇA ARDENTE — 32

SARÇA ARDENTE — 32

Pois de ti, que sei eu? Só sei que te amo,
E te recuso, e tu me foges, e ando
De ti e mim falando em sons que clamo
Como se fossem de se andar clamando...
Sei que existes na voz com que te chamo,
Como na com que fujo ao teu comando!
E sei que tudo o que não sei, um dia,
Nem saberei, sequer, que o não sabia....

José Régio

SARÇA ARDENTE — 22




SARÇA ARDENTE — 22
Se é vida este jogar a ser jogado
Nesta ora adoração do próprio umbigo
Ora ânsia de exceder curvo ou quadrado
De qualquer ventre ou de qualquer postigo,
Se é vida o expresso ou contraído brado
Deste lugar com todos e comigo,
Se é vida este contínuo e fruste parto,
Vivi, Senhor!, Vivi! Mas caí farto.

José Régio

LIBERTAÇÃO

LIBERTAÇÃO

Menino doido, olhei em roda, e vi-me
Fechado e só na grande sala escura.
(Abrir a porta, além de ser um crime,
Era impossível para a minha altura...)

Como passar o tempo?...E diverti-me
Desta maneira trágica e segura:
Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,
Desfiz trapos, arames, serradura...

Ah, meu menino histérico e precoce!
Tu, sim! Que tens mãos trágicas de posse,
E tens a inquietação da Descoberta!

O menino, por fim, tombou cansado;
O seu boneco aí jaz esfarelado...
E eu acho, nem sei como, a porta aberta!

José Régio

IGNOTO DEO

IGNOTO DEO

Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.

Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,

Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!


José Régio

FADO PORTUGUÊS

FADO PORTUGUÊS

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

José Régio

ÍCARO


ÍCARO

A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.

José Régio

José Régio - Biografia

JOSÉ RÉGIO

José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira,

natural de Vila do Conde (Portugal) e o seu nascimento data de 1901.

Em Vila do Conde, terra onde viveu até acabar o quinto ano do liceu, publicou os seus primeiros poemas nos jornais, O Democrático e República.
Aos dezoito anos, José Régio, foi para Coimbra, onde  licenciou-se em Filologia Românica(1925) com a tese «As Correntes e As Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa». Esta tese na época não teve muito sucesso, uma vez que valorizava poetas quase desconhecidos na altura, como Fernando Pessoa e Mário Sá-Carneiro, mas em 1941 foi publicada com o título Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa.


Em 1927, com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, fundou a revista Presença, que veio a ser publicada, irregularmente, durante treze anos. Esta revista veio a marcar o segundo modernismo português, que teve como principal impulsionador e ideólogo, José Régio.

Este, também escreveu em jornais como, Seara Nova, Ler, O Comércio do Porto e o Diário de Notícias. Foi neste mesmo ano que José Régio começou a lecionar num liceu no Porto, mas isto foi só até 1928, pois a partir desse ano, passou a lecionar em Portalegre, onde esteve por mais que trinta anos.

Em 1966, Régio, voltou para Vila do Conde, onde veio a morrer em 1.969.
José Régio teve durante a sua vida uma participação ativa na vida pública, mantendo-se fiel aos seus ideais socialistas, apesar do regime autoritário de então, e também, seguindo os gostos do irmão, Júlio Saul Dias, expressou o seu amor pelas artes plásticas, ilustrando um dos seus livros.


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Como escritor, José Régio, dedicou-se ao ensaio, à poesia, ao texto dramático e à prosa. Refletindo durante toda a sua obra problemas relativos ao conflito entre Deus e o Homem, o indivíduo e a sociedade.

Usando sempre um tom psicologista e misticista, analisando a problemática da solidão e das relações humanas, ao mesmo tempo que levava a cabo uma auto-análise. José Régio é considerado um dos grandes vultos da moderna literatura portuguesa e recebeu em 1966 o Prêmio Diário de Notícias e em 1970 o Prêmio Nacional da Poesia. Hoje em dia, as suas casas em Vila do Conde e em Portalegre são casas-museu.





OBRA:

Poesia
• 1925 - Poemas de Deus e do Diabo.
• 1929 - Biografia.
• 1935 - As Encruzilhadas de Deus.
• 1945 - Fado (1941), Mas Deus é Grande.
• 1954 - A Chaga do Lado.
• 1961 - Filho do Homem.
• 1968 - Cântico Suspenso.
• 1970 - Música Ligeira.
• 1971 - Colheita da Tarde.

Ficção
• 1934 - Jogo da Cabra-Cega.
• 1941 - Davam Grandes Passeios aos Domingos.
• 1942 - O Príncipe com Orelhas de Burro.
• 1945 a 1966 - A Velha Casa.
• 1946 - Histórias de Mulheres.
• 1962 - Há Mais Mundos.

Ensaio
• 1936 - Críticas e Criticados.
• 1938 - António Botto e o Amor.
• 1940 - Em Torno da Expressão Artística.
• 1952 - As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa.
• 1964 - Ensaios de Interpretação Crítica.
• 1967 - Três Ensaios sobre Arte.
• 1977 - Páginas de Doutrina e Crítica da Presença.

Teatro
• 1940 - Jacob e o Anjo.
• 1947 - Benilde ou a Virgem-Mãe.
• 1949 - El-Rei Sebastião.
• 1954 - A Salvação do Mundo.
• 1957 - Três Peças em Um Acto.

Casa Museu José Régis

4 de ago de 2013

''Retrato''


Pensamentos se cruzam:
- encontro?!

Silêncios,
ausência presente,
convergência...

um ponto
rubro,
vivo,

no peito!...

Sim!

Joaquim do Carmo, 02/08/2013 (a publicar)
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[Tela de Mihai Olteanu]