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28 de abr. de 2014

ETERNIDADE



Conheci-te de noite: por isso te chamo estrela.
Conheci-te de dia: por isso te chamo claridade.
Conheci-te em todas as horas: por isso
te chamo eternidade.

Albano Martins,
in “Vocação do Silêncio”

TALVEZ



Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste:
talvez.
Esta é a única palavra
que não tem casa.
Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio…


- Albano Martins -
in Palinódias, palimpsestos

16 de out. de 2013

SÃO ESTAS AS CORES


SÃO ESTAS AS CORES

Se a alguém tens
de agradecer, agradece
primeiro à vida.Por isto,
quanto mais não seja: por teres
nascido de pé e de pé
resistires aos temporais
como as árvores
de raízes fundas.Como a elas,
só te arrancarão à força.Podem,
então, encher-te a boca de terra e os olhos
de sal. São estas
as cores da vergonha.

Albano Martins

BASTA UMA FLOR

BASTA UMA FLOR

Basta uma flor,
basta uma asa
para saber que a primavera
entrou em nossa casa.

Albano Martins

O RITMO...

O RITMO...

O ritmo
do universo
cabe,
inteiro,
na pupila
dum verso.

Albano Martins, in
Em tempo e memória

ETERNIDADE


ETERNIDADE

Conheci-te de noite: por isso te chamo estrela.
Conheci-te de dia: por isso te chamo claridade.
Conheci-te em todas as horas: por isso
te chamo eternidade.

Albano Martins,
in “Vocação do Silêncio”

O MESMO NOME

O MESMO NOME

Cabem ali
todos os indícios. De nenhuma
casa, nem mesmo
dos seus alpendres, te consideras
dono e senhor. E,
por mais que escrevas,
escreveras sempre
o mesmo nome.

(O mesmo nome)


Albano Martins
In: Antologia Poética

O PERCURSO E O PÉRIPLO


O PERCURSO E O PÉRIPLO

Também eu
naveguei, fiz o percurso
e o périplo das índias
naufragadas.
Das essências
a parte que me coube a dissipei
em lume de esmeraldas
e de escamas.
Toda
a aventura humana
é gume de água, lâmpada febril.

(O mesmo nome)


Albano Martins
In: Antologia Poética

O SINO E A SINA


O SINO E A SINA

Percorreras de novo
estas veredas. Ouvirás
de novo o sino (e a sina)
nas asas
da calhandra. Deixaras
finalmente à sombra
adulta dos salgueiros
teu pálido rebanho.
Então,
podes volver os passos,
subir a escada erma
e plantar
uma flor no vazio.

(Os remos escaldantes)

Albano Martins
In: Antologia Poética

VERMELHO, AZUL E BRANCO


VERMELHO, AZUL E BRANCO

Ao Serafim Ferreira

E se de repente
a música
(vermelha)
fosse luz
e uma centelha
(azul)
se desprendesse
e o sangue
ardesse?

E se de repente
(branca)
a morte
sobre
viesse?

(Complementos de lugar)

Albano Martins
In: Antologia Poética

BARCOS É QUE SOMOS


BARCOS É QUE SOMOS

A teu lado viajo.
Contigo navego.
Remos são as palavras
que te digo e escrevo.

Ancoras de ternura
com elas compomos
e mastros de espuma.

Barcos é que somos.

(Complementos de lugar)


Albano Martins
In: Antologia Poética

ALEGORIA


ALEGORIA

Desliza
devagar,

sobre
a morte
constrói

sua
fácil,
inútil
circunstancia.

(Paralelo ao vento)


Albano Martins
In: Antologia Poética

LEGENDA


LEGENDA

Ao Aureliano Lima

Tarde
regressam
as manhãs
ou seu
imprevisto azul.

Cedo
se colhe
o cintilante
e frágil
perfume das laranjas.

(Paralelo ao vento)


Albano Martins
In: Antologia Poética

MODULAÇÕES


MODULAÇÕES

1.

Ultramarinos olhos chamo eu
ao teu corpo e ao meu.

2.

Pálpebras são as mãos
caídas no chão

3.

Salgado é o tempo
que nos recebe e habita.

(Em tempo e memória)

Albano Martins
In: Antologia Poética

ENTARDECER NA PRAIA DA LUZ



ENTARDECER NA PRAIA DA LUZ

Espreguiçados, os ramos
das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
de buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita.

Albano Martins,
in "Castália e Outros Poemas

ÍNDICE


ÍNDICE

Como um
livro
folheei o
teu corpo
como um
livro
à procura da tua alma:
encontrei-a no índice.


Albano Martins

Entras em mim descalça, vulnerável


...

Entras em mim descalça, vulnerável
como um alvo próximo, ferida
nos joelhos e nas coxas. Pelo tacto
nos conhecemos, é essa luz
oblíqua que nos cega. E te pertenço
e me pertences como
a lâmina
à bainha, a chama
ao pavio.

***
Onde é mais surda
a floresta
aí te penso
e escuto.

***

Com teus lábios
colhes
as maçãs precoces
do desejo.

***
Ao deserto
dos teus ombros
ofereço
os meus lábios.

***
Um gesto subtil
pode sem querer
pulverizar a pele,
calcinar abril.

***
O verde mais tenro morreria
se agora aflorasse a nossa pele.

Albano Martins

TRAPÉZIO

TRAPÉZIO

Volúvel foi o nome escolhido para a entronização da festa. Para seu ornamento, a máscara.
Uma orquestra de violinos, disposta em ogiva, convocada para a lânguida coreografia dos sentidos, ensaiava, em todos os timbres, a prometida melodia dos gestos e das palavras sem fronteiras.
Quem olhasse atentamente em redor, na sala deserta, acharia por fim descomposta a mesa, esgarçada a toalha de linho do banquete, rotas as cordas dos violinos.
Só o trapezista, lá no alto, aguardava ainda o sinal anunciado para o início do seu número, inscrito no programa. O trapézio fora, porém, retirado a ocultas, e, sem rede, apenas lhe restava o salto no vazio. O salto mortal.


Albano Martins

Excertos


...

Um leopardo
azul me conduz
pelo dorso da noite.

***

Como se esta fosse
a primeira pedra,
o lugar habitado
da primeira semente.

***
Como quem no silêncio concede
o espaço
para um filho
- assim te vejo, assim

te quero
e louvo
e invoco
e te perfilho.

***
Assim
de seu ocluso
e lânguido
casulo
expulsas
o verão.
Borboletas
sonâmbulas
do desejo

- as minhas
tuas mãos.


***
No centro da volúpia, como essência
e forma, como adorno,
contorno e cerne, é que o voo
se fixa, é que a ave
reside e o canto
mora
e morre.

***
O que quer que fosse - o liso
algodão dos lábios, a almofada
volúvel do sorriso,
Lâmpadas
ardendo sob
as devolutas pálpebras.

***
Eu te baptizo: hidrângea
é teu nome - cesto
de água, idioma
e intriga do perfume.

***
Em seda e água
lavas
teu coração
de malva.

***
Morangos
eram
tuas pupilas
brancas.

***

A tua boca:
Uma andorinha.

***
Para nenúfar
sobrava-te a água.

***
Em teus dedos pus
um anel de crisântemos.

***
Tu estás do outro lado.
Há pêssegos, laranjas sobre a mesa.
Presenças tangentes ao desejo.

***
Toco-te.
e todo o oiro se dissolve.

***
Liames, tentáculos, a
circunferência onde
acessíveis
navegam
os mitos. O rio
oval. Em suas
margens a carnuda
floração dos corpos, a
plácida,
incorrupta
nudez.
***
Abelhas circulam, circundam
a pele, o ventre. Em seus
cortiços de água e maresia
se faz doce o mel.

***
E te pressinto
o bafo. Vens
com teus pólipos de águia
submarina, teu
cinto de agudos
sobressaltos. Alga
de sangue e magma, tu
cresces redonda, coroada
de arquipélagos de escamas
e de espuma.

***
Ínvios
são os caminhos
da posse. Invio
láveis.

***
Dos artelhos
à coxa,
táctil
a noite
roxa.

***
De ti fiz a harpa e a lira,
a guitarra.
Outra música não sei.

***
Esta é a margem
do azul. Nenhum
outro limite
reconheço ao sangue.


Albano Martins
Três poemas de amor seguidos de Livro Quarto, Quasi,

2004, Lisboa

NÃO SÃO APENAS OS RELÓGIOS


NÃO SÃO APENAS OS RELÓGIOS

Também se pode regressar
sem partir. Não são apenas
os relógios que se atrasam, às vezes é
o próprio tempo. E todos
os cuidados são
então necessários. Há sempre
um comboio que rola
a nosso lado sem luzes
e sem freios. E pode
faltar-nos o estribo ou já
não haver lugar
na carruagem da frente.

Albano Martins
em Escrito a Vermelho,
Colecção Campo da Poesia/20, Campo de Letras