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30 de out. de 2013

Vivi, olhei, li, senti..


“Vivi, olhei, li, senti...
Terás então de ler de outra maneira,
Como, Não serve a mesma para todos,
cada um inventa a sua, a que lhe for própria,
há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir
mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem
que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a
corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar
à outra margem, a outra margem é que importa,
A não ser, A não ser , quê, A não ser que esses rios não tenham
duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela,
a sua própria margem,e que seja sua, e apenas sua,
a margem a que terá de chegar.”

José Saramago,
in A Caverna

Mesmo que...


"Mesmo que a rota da minha vida me conduza a uma estrela,
nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo."

José Saramago

É TÃO FUNDO O SILÊNCIO


 É TÃO FUNDO O SILÊNCIO

    É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
    Nem o som da palavra se propaga,
    Nem o canto das aves milagrosas.
    Mas lá, entre as estrelas, onde somos
    Um astro recriado, é que se ouve
    O íntimo rumor que abre as rosas.

    José Saramago

Aprendamos o Rito



Aprendamos o Rito

Põe na mesa a toalha adamascada,
Traz as rosas mais frescas do jardim,
Deita o vinho no copo, corta o pão,
Com a faca de prata e de marfim.

Alguém se veio sentar à tua mesa,
Alguém a quem não vês, mas que pressentes.
Cruza as mãos no regaço, não perguntes:
Nas perguntas que fazes é que mentes.

Prova depois o vinho, come o pão,
Rasga a palma da mão no caule agudo,
Leva as rosas à fronte, cobre os olhos,
Cumpriste o ritual e sabes tudo.

José Saramago
In Os Poemas Possíveis

Água que à Água Torna

Água que à Água Torna

Água que à água torna, de luz franjada,
Abre-se a vaga em espuma.
Movimento perpétuo, arco perfeito,
Que se ergue, retomba e reflui.
Onda do mar que o mesmo mar sustenta,
Amor que de si próprio se alimenta.

José Saramago

PARÁBOLA

PARÁBOLA

Num caroço de mentira
Trouxe a verdade escondida
Pus o caroço na terra
Nasceu verdade fingida

Não faltou água dos olhos
Ao viço desta palmeira
Que frutos daria o ramo
Da maligna sementeira

Se do sal que nela morde
Um sabor amargo sobra
É coisa que vai no rasto
Que ficou depois da cobra

Lá em cima onde a verdade
Tem a franqueza do vento
Negam ninhos as raízes
Porque é outro o seu sustento

E o tronco tão levantado
Sobre o caroço partido
Não é tronco mas é homem
Alto firme e decidido


José Saramago
In Provavelmente Alegria

19 de out. de 2013

AQUI A PEDRA CAI

AQUI A PEDRA CAI

Aqui a pedra cai com outro som
Porque a água é mais densa, porque o fundo
Tem assento e firmeza sobre os arcos
Da fornalha da terra.
Aqui reflete o sol, e tange à superfície
Uma ruiva canção que o vento espalha.
Nus, na margem, acendemos convulsos
A fogueira mais alta.
Nascem aves no céu, os peixes brilham,
Toda a sombra se foi, que mais nos falta?

José Saramago
In Provavelmente Alegria

PASSADO, PRESENTE, FUTURO

PASSADO, PRESENTE, FUTURO

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

José Saramago

'A Ponte'

'A Ponte'

Vidraças que me separam
Do vento fresco da tarde
Num casulo de silêncio
Onde os segredos e o ar
São as traves duma ponte
Que não paro de lançar

Fica-se a ponte no espaço
À espera de quem lá passe
Que o motivo de ser ponte
Se não pára a construção
Vai muito mais a vontade
De estarem onde não estão

Vem a noite e o seu recado
Sua negra natureza
talvez a lua não falte
Ou venha a chuva de estrelas
Basta que o sono consinta
A confiança de vê-las

Amanhã o novo dia
Se o merecer e me for dado
Um outro pilar da ponte
Cravado no fundo do mar
Torna mais breve a distância
Do que falta caminhar

Há sempre um ponto de mira
O mais comum horizonte
Nunca as pontes lá chegaram
Porque acaba o construtor
Antes que a ponte se entronque
Onde se acaba o transpor

Sobre o vazio do mar
Desfere o traço da ponte
Vá na frente a construção
Não perguntem de que serve
Esta humana teimosia
Que sobre a ponte se atreve

Abro as vidraças por fim
E todo o vento se esquece
Nenhuma estrela caiu
Nem a lua me ajudou
Mas a ruiva madrugada
Por trás da ponte aparece.


José Saramago
In Provavelmente Alegria

CAMINHO

CAMINHO

Há mentiras demais e compromissos
(Poemas são palavras recompostas)
E por tantas perguntas sem respostas
Mascara-se a verdade com postiços.

Não vida, nem sombra, nem razão,
É jaula de doidice furiosa,
Eriçada de gritos, angulosa,
Com estilhaços de vidro pelo chão.

E carrego demais esta jornada
E protestos não servem, nem suores,
Já mordidos os membros de tremores,
Já vencida a bandeira e arrastada.

Depois se me apagaram os amores
Que a viagem fizeram desejada.

José Saramago

Alegria

Alegria

Já ouço gritos ao longe
Já diz a voz do amor
A alegria do corpo
O Esquecimento da dor

Já os ventos recolheram
Já o verão se nos oferece
Quantos frutos quantas fontes
Mais o sol que nos aquece

Já colho jasmins e nardos
Já tenho colares de rosas
E danço no meio da estrada
As danças prodigiosas

Já os sorrisos se dão
Já se dão as voltas todas
Ó certeza das certezas
Ó alegria das bodas


José Saramago
in "Provavelmente Alegria"

CIRCO

CIRCO

Poeta não é gente, é bicho raro
Que de jaula ou gaiola se escapou
E anda pelo mundo às cabriolas,
Aprendidas no circo que inventou.

Estende no chão a capa que o disfarça,
Faz do peito tambor, e rufa, salta,
É urso bailarino, mono sábio,
Ave de bico torto e pernalta.

Ao fim toca a charanga do poema,
Todo feito de notas arranhadas,
E porque bicho é, bicho ali fica,
A uivar às estrelas desprezadas.


José Saramago

É tão fundo o silêncio...


É tão fundo o silêncio

É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
Nem o canto das aves milagrosas.
Mas lá, entre as estrelas, onde somos
Um astro recriado, é que se ouve
O íntimo rumor que abre as rosas.

José Saramago

Céu


Céu

"São os sonhos que seguram o mundo
na sua órbita. Mas são também os
sonhos que lhe fazem uma coroa de
luas, por isso o céu é o resplendor que
há dentro da cabeça dos homens, se
não é a cabeça dos homens o próprio e
o único céu."


José Saramago

[...]

[...]

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça
Calado estou, calado ficarei
Pois que a língua que falo é de outra raça

Palavras consumidas se acumulam
Se represam, cisterna de águas mortas
Ácidas mágoas em limos transformadas
Vaza de fundo em que há raízes tortas

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas
Nem só animais bóiam, mortos, medos
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos

Só direi
Crispadamente recolhido e mudo
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo

José Saramago

Tempo de Cristal


Tempo de Cristal

Meu caminho de choupos, apontado
Ao segredo do ovo e das raízes,
Ou vara de cristal em mãos de fogo
E grito de barqueiro à madrugada:
Longa foi a jornada, e muitas águas
Foram charcos parados, quando rios
As fontes, que eram minhas, prometiam.
E barcos encalhados se perderam.

Sobre a terra pousada, como um sino,
Tange o vitral do céu e nasce o mundo:
Águas vivas, libertas, olhos de aves
São as formas do sol no ovo aberto.
Vão navegando os barcos, e as raízes
Firmes na rocha os troncos alimentam:
Descem brilhando ao fundo a vara e o fogo
E o tempo de cristal sobe até nós.

José Saramago
In ‘Provavelmente Alegria’ (1.985)

No silêncio dos olhos

No silêncio dos olhos

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?


José Saramago

JUSTIÇA

JUSTIÇA

"... a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça.Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinônimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em ação, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste."

José Saramago

AS PALAVRAS SÃO NOVAS

AS PALAVRAS SÃO NOVAS

As palavras são novas: nascem quando
No ar as projetamos em cristais
De macias ou duras ressonâncias

Somos iguais aos deuses, inventando
Na solidão do mundo estes sinais
Como pontes que arcam as distâncias.

José Saramago

10



10

Certos homens embora não adaptados morfolo-
gicamente passaram a viver debaixo do chão

Utilizaram a técnica da toupeira a céu fechado
por sofrerem de limitações físicas semelhantes

E se é verdade que com o tempo desenvolveram
as unhas em comprimento e resistência

Nunca puderam cavar galerias profundas

Custar-lhes-ia provavelmente distanciarem-se
do sol

Caso em que teriam muito mais razão do que a
toupeira que é cega ou quase e o homem não ainda
que nesse sentido tenha feito alguns progressos

Por isso é fácil descobrir os túneis cavados por
estes homens que se afastaram do mundo exterior

Com a preocupação de romperem caminho tão
perto da luz estalam a crosta da terra e são como os
avestruzes que se supõem escondidos

Os perseguidores nem mesmo hesitam entre os
dois extremos do túnel como se poderia hesitar pe-
rante o risco feito na areia por aqueles bivalves de
água doce que acreditam no destino

Porque onde a terra estiver mais fresca ali estará
agitando-se devagar o oculto

Uma lança cravada a pique ou uma estaca três-
passam pelas costas o homem de unhas longas e co-
ragem insuficiente

Boa armadilha seria porém a galeria cavada à
superfície

Se os homens que assim escolheram viver com-
preendessem que tem de cavar para baixo e fundo
um poço antes que venham a lança e a estaca

Para que o perseguidor morra enterrado no pré-
ciso momento em que iria matar e para que come-
cem a igualar-se as perdas

Em nome da simples e necessária justiça

José Saramago