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24 de out. de 2013

''MADRUGADA''


Há que deixar no mundo as ervas e a tristeza,
e ao lume de águas o rancor da vida.
Levar conosco mortos o desejo
e o senso de existir que penetrando
além dos lodos sob as águas fundas
hão de ser verdes como a velha esperança
nos prados de amargura já floridos.

Deixar no mundo as árvores erguidas,
e da tremente carne as vãs cavernas
aos outros destinadas e às montanhas
que a neve cobrirá da álgida ausência.
Levar conosco em ossos que resistam
não sabemos o quê de paz tranquila.

E ao lume de águas o rancor da vida.


Jorge de Sena,
In ‘Versos e Alguma Prosa'


[Arte by MoonyKhoa Le]

28 de jul. de 2010

'VITA BREVIS'


A vida é breve mas que a faz mais breve
não é morrer-se nem morrer quem foi
conosco nela espaço forma e tempo.
Que mais que a morte a humanidade encurta
e torna mais estreita a nossa vida.
Só brevemente e por um breve instante
seu corpo nos concede. E brevemente
é que pensar deseja que existimos.
Antes de mortos, antes de sozinhos
e apenas visitados de memórias,
já todos somos um jornal antigo
deitado fora sem sequer ser lido,
ou somos uma imagem desenhada
na borda do passeio em que se exibem
pisando-a com os pés que desenham
seus mesmos rostos que outros pés já pisam.
A vida é breve, breve, mas mais breve
quanto a quer breve a estupidez humana
fiel ao tempo ainda em que de espaço
o tempo se fazia e o pouco espaço
na terra imensa a todos não chegava.

5/1/1971

Jorge de Sena,
in Poesia-III, Edições 70, pp. 139-140, Agosto de 1989.

16 de jul. de 2009

ESCRITO EM VERONA


(Verona- Italy)

As coisas não se vêem por metade.
Ou passas e as fitas de repente
pousando um longo olhar de eternidade
que logo vai aos fumos da memória,
ou viverás com elas, nelas
vendo-te como em espelho que te sobrevive.
Mas o passar como quem visse tudo
e ali ficasse não ficando a vida
faz que as coisas se cubram de um cristal
opaco e as diluindo em corpo falso,
aquele que é quanto então mereces.


Jorge de Sena
In Exorcismos

20 de mai. de 2009

Prelúdios e Fugas de J.S. Bach, para Órgão


São contra a morte, ou contra a vida, as vozes
que tão fugatamente desconversam?
São contra a terra ou contra o céu as pausas
quase que imperceptíveis que retornam?
São contra as coisas ou são contra os homens
certas singelas notas que persistem?
Ou a favor? Não sei. Talvez que sejam
uma existência que se vive ouvindo
apenas o fluir da música nascida
de não fluir mais nada que não seja a vida.
Numa estridência uma alegria vibra?
Ou treme uma amargura asfixiante?
E nestes graves que ressoa: a dor
ou uma serena e firme complacência ignota?
Oh não. Que a vida está ausente e alheia,
lá onde, como aqui, os sons são ela mesma
tornada um tempo que nos flui mental,
concreto, ciente, e reduzido a nada.

Jorge de Sena
In: Arte de Música

Concerto em Ré menor, Para Piano e Orquestra, de Mozart


Finíssima amargura recatada,
que exasperadamente se contém
de gritos e lamentos mas devém
doçura tensa tão dialogada

que nas mesuras fica disfarçada
a dor de ser-se, que sabemos bem
não ser este sorriso mas além
a dura soledade condenada

à morte e à desgraça. Nada mais
que o esgar tranquilo, insólito e discreto
a despontar entre insistências tais

que é como triunfo de um rigor disperso
em salpicado som órfão de afeto,
morto do amor em que flutua imerso.

Jorge de Sena

GENESIS


De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir,que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ... - Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.

Jorge de Sena