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16 de dez. de 2009

Nunca mais



Passa um dia,
e outro a correr atrás dele
e outro e outro...
O tempo a todos impele,
tal o vento
levando, em doida correria,
revoadas de folhas outonais,
folhas de calendários sempre iguais,
uma a uma arrancadas,
perdidas nas estradas...

Nunca mais... Nunca mais...

Saúl Dias,
in: Essência
(Portugal 1902-1983)

15 de dez. de 2009

As flores tardias de maio



Aqui, olhando as pessoas ao acaso,
vêm-me à lembrança aqueles dias
em que os nossos olhos se ajustavam
e tu lias, em voz alta, os autores
da nossa preferência.
Recordo isto, como um tempo
em que os pássaros vinham,
em grandes círculos, sobrevoar
a imprevisível alegria,
tecida por nossas mãos,
para iluminar, sobre a mesa,
as flores tardias de maio.

Graça Pires
De 'O silêncio:lugar habitado', 2009

14 de dez. de 2009

Chuva



Chuva, caindo tão mansa,
Na paisagem do momento,
Trazes mais esta lembrança
De profundo isolamento.

Chuva, caindo em silêncio
Na tarde, sem claridade...
A meu sonhar d'hoje, vence-o
Uma infinita saudade.

Chuva, caindo tão mansa,
Em branda serenidade.
Hoje minh'alma descansa.
— Que perfeita intimidade!...


Francisco Bugalho
in "Paisagem"
(1905-1949)

11 de dez. de 2009

Nevoeiro



Quem poderá saber que estranha bruma
Brotou caladamente em minha volta
Pra que eu perdesse as horas uma a uma
Sem um gesto, sem gritos, sem revolta.

Quem poderá saber que estranhos laços
E que sabor de morte lento e amargo
Sugaram todo o sangue dos meus braços –
O sangue que era sede do mar largo.

Quem poderá saber em que respostas
Se quebrou o subir do meu pedido
Para que eu bebesse imagens decompostas
À luz dum pôr de sol enlouquecido.


Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)

9 de dez. de 2009



«Eras uma flor inventada
com milhões de sóis em cada pétala.»


Havia
na minha rua
uma árvore triste.

Quebrou-a o vento.

Ficou tombada,
dias e dias,
sem um lamento.

(Assim fiquei quando partiste...)


Saul Dias
(Júlio Maria dos Reis Pereira)
(1902-1983)

RELÍQUIA



Onde está o silêncio onde jaz o silêncio?
Não neste braço sujo cortado
Não neste tapete espesso neste bloco de apontamentos
onde se cruzam insultos rimas
Não no pequeno perímetro das veias

- afinal tudo tudo entre nuvens de carbono
semelhantes a um bafo de camponês sobre a neve
onde se esmagavam insectos e excrementos de lobo
O primo velho outrora mo ensinara num mês adolescente.

Onde em que ilha de desolação
sufocado incerto esse silêncio soberano
onde jaz cerzido por traços de faca de pedra
Não não o barulho de um passo que caminha para a beleza dum rosto
saindo de um vazadouro para a lama musgosa da margem
Brillhante como celofane

O silencio que respira
Sim o silêncio morno de quem procura o vazio
ou de quem busca uma côr imersa na carne recordada
da mão faminta de muitos negrumes alheios

O silêncio que se recolhe
que se desdobra
que nos relembra de momentos e perdas
O silêncio que permutamos
O silêncio para além da luz entre os olhos de uma fera morta.


Nicolau Saião
(Monforte do Alentejo - 1946)

25 de nov. de 2009

'É pela tarde, quando a luz esmorece'



É pela tarde, quando a luz esmorece
E as ruas lembram singulares colméias,
Que a alegria dos outros me entristece
E aguço o faro para as dores alheias.

Um que, impaciente, para o lar regresse,
As viaturas que se cruzam cheias
Dos que fazem da vida uma quermesse,
São para mim, faminto, odor de ceias.

Sentimento cruel de quem se afasta,
Por orgulho repele, e se desgasta
No esforço de fugir à multidão.

Mas castigo de quem, por imprudente,
Já não pode deter-se na vertente
Que vai da liberdade à solidão.

Reinaldo Ferreira
In ‘Um voo cego a nada’

24 de nov. de 2009

Primavera



As heras de outras eras água pedra
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias
E a sombra da folhagem nas paredes
Descalço o passo sobre os musgos verdes
E a noite transparente e distraída
Com seu sabor de rosa densa e breve
Onde me lembro amor de ter morrido
- Sangue feroz do tempo possuído

Sophia de Mello Breyner Andresen
in:Livro Sexto II (1962)

Meio da vida


(Photographer: Vitaly Pussa)

Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra

A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida


Sophia de Mello Breyner Andresen
in:Livro Sexto II (1962)

'INSTANTE'



Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio

Sophia de Mello Breyner Andresen
in:Livro Sexto II (1962)

11 de nov. de 2009

DA VOZ DAS COISAS



Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


Fiama Hasse Pais Brandão

10 de nov. de 2009

Somos Poesia



outrora foi contemplado
o momento para o qual fomos criados.

exultando,
correntes cósmicas reúnem-se
para o semear de cometas dourados.

tempos conjugam-se na linha em amor
e o azul amplia o horizonte,
onde safiras transparentes compõem as lágrimas das estrelas.

as constantes partiram em paz
e todos os corpos celestes rejubilam em silencio.

na pirâmide mística da evolução
o altar, decorado com pérolas flamejantes,
aguarda o consagrar dos votos.

Beijo em teu coração.
A noite virá mais serena.

Beijo em teu imenso ser.
O sol trará outro dia.

somos poesia dos deuses,
verbo da Luz.

jamais seremos sós!


Vicente Ferreira da Silva

POEMA AO MEU ESPAÇO



Cerca-me o espaço que não vejo
a curvatura relativista
de meus olhos, o horizonte
que entra a fundo no meu corpo,
a claridade das formas
que se incendeiam.

O meu espaço foge
aos tensores de Riemanm
alarga-se a alaga-se
num lago próximo.

Desconhece as leis da física,
permanece à luz
e pertence aos artifícios da luz,
como silhueta duma árvore
respirando a interior volúpia
das águas móveis.

Vieira Calado

6 de nov. de 2009

Imagem



No firme azul do desdobrado céu
Decantarei a mínima magia
Das sensações mais puras, melodia
Da minha infância, onde era apenas Eu.

Da realidade nua desce um véu
Que, já sem mar, apenas maresia,
me vem tecer aquela chuva fria,
Que prende esta janela ao claro céu.

Despido o ouropel desvalioso,
Já não apenas servo, mas o Rei
Da luz da minha lâmpada nomeia,

Assim procuro o centro misterioso
Do mundo que hoje habito, onde serei
Concêntrica expressão da vida inteira.


Alberto de Lacerda