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1 de mar. de 2011

Um poema de Vicente Ferreira da Silva


é no silêncio
que se sente a essência,
que se percebe que nem tudo reluz,
mas que há esperança
na existência.
...
é no silêncio
que se pensa a consciência,
que se tenta ascender a humanidade
ao encontro da lembrança.

é no silêncio
que o oleiro molda o barro em luz,
na amplitude dum pequeno gesto

e também é no silêncio,
em silêncio,
que se ora ao Criador

Vicente Ferreira da Silva

Ser, parecer


Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos


Mia Couto

9 de fev. de 2011

Viagem


Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro
Era longe o meu sonho e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos.)

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga

Ânsia


Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo

Mia Couto

8 de fev. de 2011

Manhã


Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos

Mia Couto

Morte silenciosa


A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de nós
imigrou a ave a inquietação

Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida

Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada

Mia Couto

27 de dez. de 2010

Uma cronica- poema de Gleidston Cesar


Descobri que para dois elos de uma corrente se unirem é preciso que um esteja aberto.

Descobri que para amar é preciso estar disponível.

Descobri que o que me faz ser diferente, é exactamente ser diferente.

Descobri que a cor da pele fecha e abre muitas portas.

Descobri que ler e escrever é necessário para entender a razão do ser humano.

Descobri que ter irmãos, na vida, é ser amigo, sem nada em troca pedir.

Descobri que ilusões são devaneios e sonhos são esperança, e que a única diferença entre um e outro, é que uns são alcançáveis e os outros não.

Descobri que para dizer: eu te amo, preciso primeiro provar com atitudes. Só então,depois, a frase terá sentido. Aprendi que amar, não é dizer, é vivenciar, disponibilizar e apoiar, sempre.

Descobri que amigos de verdade são aqueles que têm, os maiores defeitos, e nós
conseguimos suportá-los, e vice-versa.

Compreendi que meus pais são jóias raras. Que posso ir e vi, e eles estarão sempre no mesmo lugar, abertos os braços para me receberem.

Compreendi que experiência é quando, dia a dia me disponibilizo para a vida sem nada esperar em troca e meu dia acaba de forma diferente.

Compreendi que respeito eu conquisto com as minhas atitudes.

Descobri que ter humildade me abrirá muitas portas.

Descobri que preconceito, eu venço com competência.

Aprendi que ser negro ou branco, me faz perder tempo no discurso, e ser humano, me faz conquistar a plateia.

Compreendo, que quando você terminar de ler esse simples texto, terá uma opinião sobre o que leu. Isso irá evidenciar a lógica sobre o que escrito está.

( Gleidston César)

20 de dez. de 2010

Um poema de Gleidston Cesar.


Hoje escrevo-te para que saibas que dispenso
Tua presença embora ainda me sinta tentado
A não escrever. Mas é necessário.

Para que saibas que entre nos já não existe
...Companheirismo, não fidelidade nem
Lealdade. Você foi por longos anos, minha
Melhor companhia.

Na ausência de tantos outros sentimentos que
Não consegui exprimir, você não me deixou,
Esteve sempre presente. Quando fiquei no
Abandono, lá estava você. Quando não tive
Amigos, era você que nas letras das canções
Falava, vociferava, e se fazia presente.

Você solidão, sempre me viu e exibiu como troféu,
Sempre fez questão de em mim estampar o sinal
De que você era minha melhor companhia. Por isso
Sempre me olhei e fui olhado como se olha para alguém
Abandonado. Mas eu era mais.
Eram complacentes os olhares por isso
Minha presença enfadonha.

Em minhas palavras não havia suavidade.
Nelas sempre soava e se sentia
O odor do desprazer de quem sempre
Na depressão de alguma vivência vivia.

Hoje, solidão, tenho a felicidade de te demitir.
Na actual circunstancia você é indesejada e
Não há espaço para convivência! O sorriso
Que hoje trago e os sentimentos
Que a experiência me trouxe fizeram-me
Solidário comigo.

(Gleidston Cesar)

12 de nov. de 2010

'Poema em Novembro'


Era Novembro e chovia na cidade.

Pairava um halo sobre as casas
um fastio dulcíssimo nos corpos.

Soavam fogos de harmonias
que falavam de outras eras
doutros sonhos, doutras águas

palavras que traziam novelos de palavras,
murmúrios, comércio de pequenas alegrias
que acendiam memórias doutros gestos

e uma flauta que ardia nos teus olhos
a melancolia esdrúxula de meus dias.

Vieira Calado
Em "Causas de Habituação", a publicar

25 de out. de 2010

Sou habitante da cidade


Sou habitante da cidade, como os pombos
que esvoaçam a esperança de lés a lés.
Sou habitante da cidade,
como todos os sobreviventes
do cansaço ritmado dos horários.
As ruas esvaziam-se.
Um som sufocado de baladas protege
os culpados das ruínas do outono.
Em vão me iludo com a claridade da cidade desperta.
Ninguém chora a noite
depois da passagem dos barcos
pelo olhar das pessoas desprevenidas.


Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

15 de out. de 2010

'Garras dos sentidos'


Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.

Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Dá má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos

Agustina Bessa-Luis
in 'Dicionário Imperfeito'

A grande escritora portuguesa, completa hoje 86 anos.

27 de set. de 2010

HORIZONTE

(Painting by Nkolika Anyabolu)

O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,

Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.
Linha severa da longínqua costa-
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta

Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte

A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade

Fernando Pessoa
de Mensagem- 2ª parte - O mar português -

17 de set. de 2010

"A rua respira"


a rua respira de um amarelo minúsculo,
nos dedos a poesia gasta-se.
com algemas nasceu uma rosa corroendo a paisagem,
e é Setembro.
chegaram os sopros pungentes da iluminação.

certamente vestirei um acto inútil,
perderei do sentido a noção.

ouve-me,
ainda que as esferas no meu sangue se esbarrem, o vento
continua a empurrar as aves
que conduzem trenós, e a ternura é veloz.


Maria Gomes
(Portugal)

1 de set. de 2010

José Eduardo Agualusa


Antes que venham as primeiras chuvas
acender
Amarelas flores entre os rochedos
E o céu se torne móvel de compridos pássaros
E todo o chão se cubra do verde novo
Do capim
Saberás pelo vento que chegaste ao fim.


José Eduardo Agualusa
(Huambo, Angola; 13 de Dezembro de 1960)

'Poema para Iludir a Vida'


Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos
[portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje
[o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.


Fernando Namora,
in "Mar de Sargaços"