Seja bem-vindo. Hoje é

10 de mai. de 2011

PALCO


Dadas as mãos,
Enlaçados os dedos,
Unidos os destinos,
Ficámo-nos extáticos, frente ao altar do universo,
Como se fora no princípio do mundo!...

- No começo da Vida!

Um canto de ave, ante a manhã, voou sobre as nossas cabeças
E perante o Sol que rompia no horizonte largo
Gozámos o poema inédito do Primeiro Dia,
Renascido das cinzas dum mundo velho e apodrecido
Como Eva redentora saída das costas inconscientes do novo Adão.


Vasco Miranda
De Luz na Sombra (1946)

8 de mai. de 2011

A CHEGADA DO INVERNO


Nem sempre
a vida acolhe ou alimenta
os nomes do passado, o seu abismo
repetido num sonho, na mais lenta
assombração, no mais íntimo sismo

Do que chamamos alma. Não existo
sem essa febre mansa que relembro
enquanto as nuvens cobrem tudo isto
com o frio escuro de um dezembro

Longe de mim, de ti, de qualquer lei
ou juízo a que demos um sentido:
o que finjo saber é o que não sei
e as palavras colam-se ao ouvido.


Fernando Pinto do Amaral
(Lisboa, 12 de Maio de 1960)

6 de mai. de 2011

VENTO NO ROSTO


À hora em que as tardes descem,
noite aspergindo nos ares,
as coisas familiares
noutras formas acontecem.

As arestas emudecem.
Abrem-se flores nos olhares.
Em perspectivas lunares
lixo e pedras resplandecem.

Silêncios, perfis de lagos,
escorrem cortinas de afagos,
malhas tecidas de engodos.

Apetece acreditar,
ter esperanças, confiar,
amar a tudo e a todos.


António Gedeão
Movimento Perpétuo
“in” Poesias Completas

...


Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e noturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Mário Cesariny

PRAIA DO ESQUECIMENTO


Fujo da sombra; cerro os olhos: não há nada.
A minha vida nem consente
rumor de gente
na praia desolada.

Apenas decisão de esquecimento:
mas só neste momento eu a descubro
como a um fruto rubro
de que, sem já sabê-lo, me sustento.

E do Sol amarelo que há no céu
somente sei que me queimou a pele.
Juro: nem dei por ele
quando nasceu.


David Mourão-Ferreira
in "Tempestade de Verão"

2 de mai. de 2011

Para ti


ia escrever.
ia escrever letras de fogo
com as lágimas da saudade
que alimentam a fornalha da vontade.
ia escrever!
ia escrever o teu nome no pulsar do tempo.
mas não escrevo.
não escrevo porque sou o teu nome!

Vicente Ferreira da Silva

24 de mar. de 2011

'Talvez existam anjos com olhos de musgo'


Caminhamos por entre as árvores
com a boca a saber a menta e a malvas.
Trazemos nas mãos um herbário
de tão fugaz esperança
que nenhuma outra se tece sem desvios
na dobra do peito.
Talvez existam anjos com olhos de musgo
à beira dos abismos por onde se esgueiram
os dias que nos roubam a eternidade.
Talvez a turbulência verde na borda dos ribeiros
unja de seiva a passagem do tempo.

Graça Pires
De 'A incidência da luz', 2011

Do blog da escritora, poema de seu último livro,
lançado em 19/03/2011 - Editora Labirinto- Portugal

1 de mar. de 2011

Um poema de Vicente Ferreira da Silva


é no silêncio
que se sente a essência,
que se percebe que nem tudo reluz,
mas que há esperança
na existência.
...
é no silêncio
que se pensa a consciência,
que se tenta ascender a humanidade
ao encontro da lembrança.

é no silêncio
que o oleiro molda o barro em luz,
na amplitude dum pequeno gesto

e também é no silêncio,
em silêncio,
que se ora ao Criador

Vicente Ferreira da Silva

Ser, parecer


Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos


Mia Couto

9 de fev. de 2011

Viagem


Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro
Era longe o meu sonho e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos.)

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga

Ânsia


Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo

Mia Couto

8 de fev. de 2011

Manhã


Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos

Mia Couto

Morte silenciosa


A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de nós
imigrou a ave a inquietação

Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida

Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada

Mia Couto

27 de dez. de 2010

Uma cronica- poema de Gleidston Cesar


Descobri que para dois elos de uma corrente se unirem é preciso que um esteja aberto.

Descobri que para amar é preciso estar disponível.

Descobri que o que me faz ser diferente, é exactamente ser diferente.

Descobri que a cor da pele fecha e abre muitas portas.

Descobri que ler e escrever é necessário para entender a razão do ser humano.

Descobri que ter irmãos, na vida, é ser amigo, sem nada em troca pedir.

Descobri que ilusões são devaneios e sonhos são esperança, e que a única diferença entre um e outro, é que uns são alcançáveis e os outros não.

Descobri que para dizer: eu te amo, preciso primeiro provar com atitudes. Só então,depois, a frase terá sentido. Aprendi que amar, não é dizer, é vivenciar, disponibilizar e apoiar, sempre.

Descobri que amigos de verdade são aqueles que têm, os maiores defeitos, e nós
conseguimos suportá-los, e vice-versa.

Compreendi que meus pais são jóias raras. Que posso ir e vi, e eles estarão sempre no mesmo lugar, abertos os braços para me receberem.

Compreendi que experiência é quando, dia a dia me disponibilizo para a vida sem nada esperar em troca e meu dia acaba de forma diferente.

Compreendi que respeito eu conquisto com as minhas atitudes.

Descobri que ter humildade me abrirá muitas portas.

Descobri que preconceito, eu venço com competência.

Aprendi que ser negro ou branco, me faz perder tempo no discurso, e ser humano, me faz conquistar a plateia.

Compreendo, que quando você terminar de ler esse simples texto, terá uma opinião sobre o que leu. Isso irá evidenciar a lógica sobre o que escrito está.

( Gleidston César)

20 de dez. de 2010

Um poema de Gleidston Cesar.


Hoje escrevo-te para que saibas que dispenso
Tua presença embora ainda me sinta tentado
A não escrever. Mas é necessário.

Para que saibas que entre nos já não existe
...Companheirismo, não fidelidade nem
Lealdade. Você foi por longos anos, minha
Melhor companhia.

Na ausência de tantos outros sentimentos que
Não consegui exprimir, você não me deixou,
Esteve sempre presente. Quando fiquei no
Abandono, lá estava você. Quando não tive
Amigos, era você que nas letras das canções
Falava, vociferava, e se fazia presente.

Você solidão, sempre me viu e exibiu como troféu,
Sempre fez questão de em mim estampar o sinal
De que você era minha melhor companhia. Por isso
Sempre me olhei e fui olhado como se olha para alguém
Abandonado. Mas eu era mais.
Eram complacentes os olhares por isso
Minha presença enfadonha.

Em minhas palavras não havia suavidade.
Nelas sempre soava e se sentia
O odor do desprazer de quem sempre
Na depressão de alguma vivência vivia.

Hoje, solidão, tenho a felicidade de te demitir.
Na actual circunstancia você é indesejada e
Não há espaço para convivência! O sorriso
Que hoje trago e os sentimentos
Que a experiência me trouxe fizeram-me
Solidário comigo.

(Gleidston Cesar)