Seja bem-vindo. Hoje é
21 de fev. de 2013
é preciso dizer...
é preciso dizer
que não há mais nada a celebrar
nem os homens
nem as ideias
nem o tempo
essa fenda
que te atravessava a vida
esse rasgão generoso
que te aproximava os céus
fechou-se
estás perante o escuro silêncio
das coisas mortas
não abandones os espelhos
ainda que quebrados
eles são o palácio derradeiro
o último jardim
a gota impossível
de secar
guarda aí a semente
as palavras
as vozes
as imagens
porque o amor
é um minucioso trabalho do tempo
em direção à morte
Gil T. Sousa
11 de nov. de 2012
''QUANDO VOLTEI ENCONTREI OS MEUS PASSOS''
Quando voltei encontrei os meus passos
Ainda frescos sobre a úmida areia.
A fugitiva hora, reevoquei-a,
- Tão rediviva!, nos meus olhos baços...
Olhos turvos de lágrimas contidas.
- Mesquinhos passos, porque doidejastes
Assim transviados, e depois tornastes
Ao ponto das primeiras despedidas?
Onde fostes sem tino, ao vento vário,
Em redor, como as aves num aviário,
Até que a asita fofa lhes faleça...
Toda essa extensa pista - para quê?
Se há-de vir apagar-vos a maré,
Com as do novo rasto que começa...
Camilo Pessanha
In: 'Clepsidra'
16 de out. de 2012
''LÁ EM BAIXO É A FONTE''
Muitas vezes é o sono que me tem desperto.
Entram aqui, drenadas pela fadiga, vozes
sem rosto, o perfil agudo de um pífaro
esboçando, no ar, avulsas melodias.
Lá em baixo é a fonte, a matriz, o berço
onde nascem e morrem os lúbricos gladíolos.
Hoje, a noite é uma açucena, cheira a trevo
e a rosmaninho.
Boca silvestre.
Sorriso adúltero.
Albano Martins
de 'Assim São as Algas'
Entram aqui, drenadas pela fadiga, vozes
sem rosto, o perfil agudo de um pífaro
esboçando, no ar, avulsas melodias.
Lá em baixo é a fonte, a matriz, o berço
onde nascem e morrem os lúbricos gladíolos.
Hoje, a noite é uma açucena, cheira a trevo
e a rosmaninho.
Boca silvestre.
Sorriso adúltero.
Albano Martins
de 'Assim São as Algas'
''MEU NOME É ESTA CANÇÃO''
Sou uma criança perdida
na imaginação dum bosque.
O vento solta-me o coração,
mas prende-me os braços e o tronco
e nunca mudo de posição.
Os espanejadores do medo
levantam o pó das lágrimas.
O tempo empoeira-se de lendas
e a água da vida vai-se congelando,
enquanto os sonhos ressonam
e eu vou crescendo e minguando.
Queimem o bosque e procurem
o dicionário dos meus anos.
Não sei que idade tenho,
perdi a imaginação
e deixei a memória em casa.
Meu nome é esta canção.
Albano Martins
de «Outros Poemas», 1951/52;
«Vocação do Silêncio»
e nunca mudo de posição.
Os espanejadores do medo
levantam o pó das lágrimas.
O tempo empoeira-se de lendas
e a água da vida vai-se congelando,
enquanto os sonhos ressonam
e eu vou crescendo e minguando.
Queimem o bosque e procurem
o dicionário dos meus anos.
Não sei que idade tenho,
perdi a imaginação
e deixei a memória em casa.
Meu nome é esta canção.
Albano Martins
de «Outros Poemas», 1951/52;
«Vocação do Silêncio»
15 de set. de 2012
'ESPERANÇA'
Canto.
Mas o meu canto é triste.
Não sou capaz de nenhum outro, agora.
Em cada verso chora
Uma ilusão,
Tolhida na amplidão
Que lhe sonhei...
Felizmente que sei
Cantar sem pressa.
Que sei recomeçar...
Que sei que há uma promessa
No ato de cantar...
Miguel Torga
In: Antologia Poética
'JUSTIFICAÇÃO'
Monótono cantor à porta do destino,
Tenho a desculpa da monotonia
Do sofrimento humano.
Dói-me, e a dor não varia:
É um inverno que dura todo o ano...
Miguel Torga
In: Antologia Poética
27 de ago. de 2012
''REMINISCÊNCIA''
Prossegue o pesadelo.
Feliz o tempo, que não tem memória!
E só dos homens esta outra vida
Da recordação.
E tão inúteis certas agonias
Que o passado destila no presente!
Tão inúteis os dias
Que o espírito refaz e o corpo já na sente!
Continua a lembrança dolorosa
Nas cicatrizes.
Troncos cortados que não brotam mais
E permanecem verdes, vegetais,
No silencio profundo das raízes.
Miguel Torga
In: Antologia Poética
10 de jul. de 2012
''Memórias de Dulcineia'' XI
Com as árvores e com as águas
partilho os meus pensamentos.
Manuseio estas palavras
como se fossem minhas
para as usar como protesto,
como absolvição: a boca
devorando a própria fome.
Aguardo um sinal que decifre
o nomadismo da memória
e rompa a cumplicidade do tempo.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
partilho os meus pensamentos.
Manuseio estas palavras
como se fossem minhas
para as usar como protesto,
como absolvição: a boca
devorando a própria fome.
Aguardo um sinal que decifre
o nomadismo da memória
e rompa a cumplicidade do tempo.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
''Memórias de Dulcineia'' XIII
Sem medo do perfil
em que me invento
procuro os ângulos
menos sombrios
do passado.
Viro os gestos do avesso.
Deturpo conceitos e preconceitos.
Esqueço os comportamentos comuns.
Imagino-me num castelo longínquo,
cativa e princesa.
Não quero adiar o destino
de me rever nos sonhos
que te chamaram de tão longe.
Eu, aqui, morrendo aos poucos,
sitiada do teu nome.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
(Imagem; Eilean Donan Castle, Loch Duich Scotland)
em que me invento
procuro os ângulos
menos sombrios
do passado.
Viro os gestos do avesso.
Deturpo conceitos e preconceitos.
Esqueço os comportamentos comuns.
Imagino-me num castelo longínquo,
cativa e princesa.
Não quero adiar o destino
de me rever nos sonhos
que te chamaram de tão longe.
Eu, aqui, morrendo aos poucos,
sitiada do teu nome.
Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008
(Imagem; Eilean Donan Castle, Loch Duich Scotland)
28 de jun. de 2012
DEIXEM-ME DORMIR
(Painting by Emile Vernon)
Deixem-me dormir
deixem-me a paz do sonho
o deslumbramento
da luz que sopra ainda
nos meus olhos a criança
do brinquedo
em minhas mãos
o alento de ver sorrir a madrugada
que não volta
à paz do sono da criança
que ainda sou.
Vieira Calado
Deixem-me dormir
deixem-me a paz do sonho
o deslumbramento
da luz que sopra ainda
nos meus olhos a criança
do brinquedo
em minhas mãos
o alento de ver sorrir a madrugada
que não volta
à paz do sono da criança
que ainda sou.
Vieira Calado
29 de mai. de 2012
'NADA E TUDO'
Nada e tudo são ao mesmo tempo
Igual mundo fechado e aberto
Quando um se põe a descoberto
Logo outro se opõe ao seu intento
Nada é assim, do tudo, um pouco
Que se sente vazio nesse tudo
Calando-se a alma no corpo mudo
E o universo nesse ser louco
Acenda-se a luz no breu intenso
Que o sonho vai alto mas já sem rumo
Olhos fechados no longe imenso
Sempre que se vê a porta trancada
O nada é tudo, denso de fumo
No tempo perdido que só foi nada.
Paulo Filipe
Paulo Duarte Filipe nasceu em 3 de Setembro de 1962, em Oliveira do Bairro, distrito de Aveiro, Portugal. Com poucos meses de vida, foi levado pelos seus pais para África, Angola. Cresceu aí até aos 12 anos, idade com que ganhou seu primeiro prêmio de desenho. Regressa a Portugal pouco depois. Considera-se, claramente, mais africano do que europeu. Fixa residência em Faro. Já viveu na ilha Terceira, Açores e em Londres onde realizou inúmeras exposições. Escreve regularmente para revistas e rádio. Tem diversos livros escritos que, a seu tempo, serão editados. A sua iniciação ao surrealismo deu-se por volta dos 14 anos. No entanto, feita essa aprendizagem, tentou seguir um caminho literário que lhe permite-se permanentemente recriar-se. O seu estilo peculiar de escrita é facilmente identificável pela originalidade da forma gráfica e pela total ausência de quaisquer regras ou conceitos estereotipados. Criar, para ele, é sobretudo um acto intuitivo de pura expansão/interiorização de fluidos cósmicos, da essência da loucura.
-Excerto de Tabacaria-
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era
e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara
Estava pregada à cara.
Quando a tirei e me vi no espelho.
Já tinha envelhecido.
Álvaro de Campos
in "Tabacaria"
Heterônimo de Fernando Pessoa
4 de mai. de 2012
''GRANDEZA DO HOMEM''
Somos a grande ilha do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem
Ruy Belo
EFEITOS SECUNDÁRIOS
É bom estarmos atentos ao rodar do tempo
o outono por exemplo tem recantos entre
dia e noite ao pé de certos troncos indecisos
cercados um por um de sombras envolventes
Rente às árvores vamos, húmidos humildes
Dizem que é outono. Mas que época do ano
toca nestas paredes que roçamos
como gente que vai à sua vida
e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,
ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas
para o nome do homem ou o homem do homem?
Banho lustral de ausência é este tempo
de pés postos na terra em puro esquecimento
E vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos
dispersos em bocados, vítimas do vento
ficando aqui, ali, nalgum lugar que amamos
Nada mais do que terra há quem ao corpo nos prometa
Quem somos? Que dizemos?
Reúna-nos um dia o toque da trombeta
Ruy Belo
(Portugal
12 de mar. de 2012
"Não Pode Tirar-me as Esperanças"
Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.
Luís Vaz de Camões,
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Pois não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.
Luís Vaz de Camões,
in "Sonetos"
(Formatação enviada pela amiga Lucia Cristina Borini Simoes.)
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