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27 de ago. de 2013

DEMASIADO HUMANO

DEMASIADO HUMANO

Escancarei, por minhas mãos raivosas,
As chagas que em meu peito floresciam.
Versos a escorrer sangue eis escorriam
Dessas chagas abertas como rosas…

Assim vos disse angústias pavorosas
Em versos que gritavam… ou sorriam.
Disse-as com tal ardor, que todos criam
Esse rol de misérias fabulosas!

Chegou a hora de cansar…, cansei!
Sabei que as chagas todas que aureolei
São rosas de papel como as das feiras.

Que eu vivo a expor minh’alma nas estradas,
Com chagas inventadas retocadas…
Para esconder bem fundo as verdadeiras.

José Régio

SABEDORIA

SABEDORIA

Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.

José Régio

ADEUS

ADEUS

Vai-te, que os meus abraços te magoaram,
E o meu amor não beija!, arde e devora.
Foram-se as flores do meu jardim. Ficaram
Raízes enterradas, braços fora...

Vai-te! O luar é para os outros; e os afagos
São para os outros..., os que ensaiam serenatas.
Já a lua que nos lagos boia pérolas e pratas
Não nasce para mim, que estou sem lagos.

Quando me nasce, é como um reluzir da treva,
Um riso da escuridão,
Que na minh'alma ecoa, e que ma leva
Por lonjuras de frio e solidão...

Vai-te, como vão todos; e contentes, de libertos
Do peso de eu lhes não querer trautear mentiras.
Como serias tu, flébil flor de olhos de safiras,
Que me acompanharias nos desertos?

Vai-te! não me supliques que te minta!
Beijo-te os pés pelo que me oferecias.
Mas teu amor, e tu, e eu, e quanto eu sinta,
Que somos nós mais do que fantasias?

Sim, amor meu: em mim, teu amor era doce.
Premir na minha mão a concha nácar do teu seio
Era-me um bem suave enleio...
Era... — se o fosse.

Vai-te!, que eu fui chamado a conquistar
Os mundos que há nos fundos do meu nada.
Talvez depois reaprenda a inocência de amar...
Talvez... mas ai!, depois de que alvorada?

Porque até Lá, é longe; e é tão incerto,
Tão frio, tão sublime, tão abstrato, tão medonho...
Como dar-te a sonhar este sonho dum sonho?

— Vai-te! a tua casa é perto.

José Régio

BONECO DESFEITO

BONECO DESFEITO

Surgiu no palco, um dia um bailarino,
Surgiu soberbamente nu, - jogando
Nas mãos ageis de clown e de menino
Cem máscaras rodando, rodopiando...

Sobre um décor violento e sibilino
Cegamente bailou, tombou bailando,
Como se mais não fora seu destino
Que os eu bailado altivo e miserando.

No palco jaz agora um mutilado:
Jaz morto e nu, decapitado, olhado
Por milhões de olhos sem pudor nem vista.

...Que as máscaras sem fim que ele jogara
Não eram mais, talvez, que a própria cara
Dum desgraçado e humano ilusionista!

José Régio

SONETO DO AMOR

SONETO DO AMOR

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a vida exprimir-se sem disface

José Régio

CÂNTICO

CÂNTICO

Num impudor de estátua ou de vencida,
coxas abertas, sem defesa... nua
ante a minha vigília, a noite, e a lua,
ela, agora, descansa, adormecida.

Dos seus mamilos roxo-azuis, em ferida,
meu olhar desce aonde o sexo estua.
Choro... e porquê? Meu sonho, irreal, flutua
sobre funduras e confins da vida.

Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos...
enquanto o luar a numba, inerte, gasta
da ternura feroz do meu amplexo.

Cantam-me as veias poemas nunca feitos...
e eu pouso a boca, religiosa e casta,
sobre a flor esmagada do seu sexo

José Régio

NARCISO

NARCISO

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
...Lá no fundo do poço em que me espelho

José Régio

SARÇA ARDENTE — 32

SARÇA ARDENTE — 32

Pois de ti, que sei eu? Só sei que te amo,
E te recuso, e tu me foges, e ando
De ti e mim falando em sons que clamo
Como se fossem de se andar clamando...
Sei que existes na voz com que te chamo,
Como na com que fujo ao teu comando!
E sei que tudo o que não sei, um dia,
Nem saberei, sequer, que o não sabia....

José Régio

SARÇA ARDENTE — 22




SARÇA ARDENTE — 22
Se é vida este jogar a ser jogado
Nesta ora adoração do próprio umbigo
Ora ânsia de exceder curvo ou quadrado
De qualquer ventre ou de qualquer postigo,
Se é vida o expresso ou contraído brado
Deste lugar com todos e comigo,
Se é vida este contínuo e fruste parto,
Vivi, Senhor!, Vivi! Mas caí farto.

José Régio

LIBERTAÇÃO

LIBERTAÇÃO

Menino doido, olhei em roda, e vi-me
Fechado e só na grande sala escura.
(Abrir a porta, além de ser um crime,
Era impossível para a minha altura...)

Como passar o tempo?...E diverti-me
Desta maneira trágica e segura:
Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,
Desfiz trapos, arames, serradura...

Ah, meu menino histérico e precoce!
Tu, sim! Que tens mãos trágicas de posse,
E tens a inquietação da Descoberta!

O menino, por fim, tombou cansado;
O seu boneco aí jaz esfarelado...
E eu acho, nem sei como, a porta aberta!

José Régio

IGNOTO DEO

IGNOTO DEO

Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.

Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,

Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!


José Régio

FADO PORTUGUÊS

FADO PORTUGUÊS

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

José Régio

ÍCARO


ÍCARO

A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.

José Régio

José Régio - Biografia

JOSÉ RÉGIO

José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira,

natural de Vila do Conde (Portugal) e o seu nascimento data de 1901.

Em Vila do Conde, terra onde viveu até acabar o quinto ano do liceu, publicou os seus primeiros poemas nos jornais, O Democrático e República.
Aos dezoito anos, José Régio, foi para Coimbra, onde  licenciou-se em Filologia Românica(1925) com a tese «As Correntes e As Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa». Esta tese na época não teve muito sucesso, uma vez que valorizava poetas quase desconhecidos na altura, como Fernando Pessoa e Mário Sá-Carneiro, mas em 1941 foi publicada com o título Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa.


Em 1927, com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, fundou a revista Presença, que veio a ser publicada, irregularmente, durante treze anos. Esta revista veio a marcar o segundo modernismo português, que teve como principal impulsionador e ideólogo, José Régio.

Este, também escreveu em jornais como, Seara Nova, Ler, O Comércio do Porto e o Diário de Notícias. Foi neste mesmo ano que José Régio começou a lecionar num liceu no Porto, mas isto foi só até 1928, pois a partir desse ano, passou a lecionar em Portalegre, onde esteve por mais que trinta anos.

Em 1966, Régio, voltou para Vila do Conde, onde veio a morrer em 1.969.
José Régio teve durante a sua vida uma participação ativa na vida pública, mantendo-se fiel aos seus ideais socialistas, apesar do regime autoritário de então, e também, seguindo os gostos do irmão, Júlio Saul Dias, expressou o seu amor pelas artes plásticas, ilustrando um dos seus livros.


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Como escritor, José Régio, dedicou-se ao ensaio, à poesia, ao texto dramático e à prosa. Refletindo durante toda a sua obra problemas relativos ao conflito entre Deus e o Homem, o indivíduo e a sociedade.

Usando sempre um tom psicologista e misticista, analisando a problemática da solidão e das relações humanas, ao mesmo tempo que levava a cabo uma auto-análise. José Régio é considerado um dos grandes vultos da moderna literatura portuguesa e recebeu em 1966 o Prêmio Diário de Notícias e em 1970 o Prêmio Nacional da Poesia. Hoje em dia, as suas casas em Vila do Conde e em Portalegre são casas-museu.





OBRA:

Poesia
• 1925 - Poemas de Deus e do Diabo.
• 1929 - Biografia.
• 1935 - As Encruzilhadas de Deus.
• 1945 - Fado (1941), Mas Deus é Grande.
• 1954 - A Chaga do Lado.
• 1961 - Filho do Homem.
• 1968 - Cântico Suspenso.
• 1970 - Música Ligeira.
• 1971 - Colheita da Tarde.

Ficção
• 1934 - Jogo da Cabra-Cega.
• 1941 - Davam Grandes Passeios aos Domingos.
• 1942 - O Príncipe com Orelhas de Burro.
• 1945 a 1966 - A Velha Casa.
• 1946 - Histórias de Mulheres.
• 1962 - Há Mais Mundos.

Ensaio
• 1936 - Críticas e Criticados.
• 1938 - António Botto e o Amor.
• 1940 - Em Torno da Expressão Artística.
• 1952 - As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa.
• 1964 - Ensaios de Interpretação Crítica.
• 1967 - Três Ensaios sobre Arte.
• 1977 - Páginas de Doutrina e Crítica da Presença.

Teatro
• 1940 - Jacob e o Anjo.
• 1947 - Benilde ou a Virgem-Mãe.
• 1949 - El-Rei Sebastião.
• 1954 - A Salvação do Mundo.
• 1957 - Três Peças em Um Acto.

Casa Museu José Régis

4 de ago. de 2013

''Retrato''


Pensamentos se cruzam:
- encontro?!

Silêncios,
ausência presente,
convergência...

um ponto
rubro,
vivo,

no peito!...

Sim!

Joaquim do Carmo, 02/08/2013 (a publicar)
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[Tela de Mihai Olteanu]