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4 de abr. de 2009

Mia Couto


António Emílio Leite Couto é o nome completo de Mia Couto, filho de Maria de Jesus e Fernando Couto. Nasceu na cidade da Beira, Moçambique, a cinco de Julho de 1955. É considerado um dos nomes mais importantes da nova geração de escritores africanos que escrevem em português. Isso deve-se não só á forma como descreve e trata os problemas e a vida quotidiana do Moçambique contemporâneo, mas principalmente á inventiva poética da sua escrita, numa permanente descoberta de novas palavras através de um processo de mestiçagem entre o português "culto" e as várias formas de dialetos introduzidas pelas populações moçambicanas. Mia é assim uma espécie de mágico da língua, criando, apropriando, recriando, renovando a língua portuguesa em novas e inesperadas direcções. Tem, devido a essa autêntica revolução de inventiva linguística, sido muito apropriadamente comparado a um outro grande mágico da Língua Portuguesa do século XX, o escritor brasileiro João Guimarães Rosa.

Mia Couto foi desde 1974 e durante vários anos, diretor da Agência de Informação de Moçambique, seguidamente dirigiu o jornal Noticias de Maputo e a revista Tempo. Posteriormente, estudou medicina e biologia e é atualmente biólogo na reserva natural da Ilha da Inhaca, em Moçambique.
Vencedor de vários prêmios, Mia Couto tem a sua obra traduzida em muitos países, entre eles Alemanha, Bélgica, Brasil, Bulgária, Chile, Croácia, Dinamarca, Eslovênia, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Israel, Itália, HolandaPolônia, Noruega, Reino Unido, República Checa e Suécia.

A escrita tem sido uma paixão constante, desde a poesia, com que estreou em 1983. A questão do gênero literário não é, de resto, a mais importante para um autor cuja escrita prosa e poesia se contaminam e que escreve "pelo prazer de desarrumar a língua".
Questões mais importantes relacionadas com sua obra são as relacionadas com a vida do povo moçambicano, um dos mais pobres e martirizados do mundo, recém saido de 30 anos de guerra civil e onde persiste uma forte tradição de transmissão da literatura e dos saberes essencialmente por via oral. Numa cultura onde se diz que "cada velho que morre é uma biblioteca que arde", Mia empreende uma escrita que liga a tradição oral africana á tradição literária ocidental, tal como no seu trabalho de biólogo liga, no estudo da floresta, o saber ancestral dos anciãos sobre o espírito das árvores e das plantas á moderna ciência da Ecologia. Essencial, num caso como noutro, é sempre a relação mais profunda entre o humano e a terra, entre um humano e outro humano, por vezes nas suas condições mais extremas.

OBRA

• Raiz de Orvalho (poesia, 1983)
• Vozes Anoitecidas (relatos, 1986)
• Cada Homem é uma Raça (relatos, 1990)
• Cronicando (crônicas, 1991)
• Terra Sonâmbula (novela, 1992)
• Estórias Abensonhadas (relatos, 1994)
• A Varanda do Frangipani (novela, 1996)
• Contos do nascer da terra (relatos, 1997)
• Mar me quer (novela, 1998)
• Vinte e Zinco (novela, 1999)
• O Último Vôo do Flamingo (novela, 2000)
• O Gato e o Escuro (livro infantil, 2001)
• Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos (relatos, 2001)
• Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra (novela, 2002)
• Contos do Nascer da Terra (relatos, 2002)
• O país do queixa andar (crônicas, 2003)
• O fio das missangas (relatos, 2003)
• A Chuva Pasmada (novela, 2004)
• O Outro Pé da Sereia (novela, 2006)

Prêmios

- Em 1999, Mia Couto recebeu o Prémio Vergílio Ferreira, pelo conjunto da sua obra.
- Em 2007 recebeu o Prémio União Latina de Literaturas Românicas.
- Em 2007 foi o vencedor do Prêmio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura, na Jornada Nacional de Literatura.

Fonte: Comunidade Biografia e Poesia Portuguesa - ORKUT

3 de abr. de 2009

Rosa Pálida


Rosa pálida, em meu seio
Vem querida, sem receio
esconder a aflita cor.
Ai! a minha pobre rosa!
Cuida que é menos formosa
Porque desbotou de amor.

Pois sim... quando livre, ao vento,
Solta da alma e pensamento,
Forte de sua isenção.
Tinhas na folha incendiada
O sangue, o calor e a vida
Que ora tens no coração.

Mas não era, não, mais bela,
Coitada, coitada dela,
A minha rosa gentil!
Curvavam-na então desejos,
Desmaiam-na agora os beijos...
Vales mais mil vezes, mil.

Inveja das outras flores!
Inveja de quê, amores?
Tu, que vieste dos céus,
Comparar tua beleza
Às folhas da natureza!
Rosa, não tentes a Deus.

É vergonha... de quê, vida?
Vergonha de ser querida,
Vergonha de ser feliz!
Porquê? Porquê em teu semblante
A pálida cor da amante
A minha ventura diz?

Pois, quando eras tão vermelha
Não vinha zangão e abelha
Em torno de ti zumbir?
Não ouvias entre as flores
Histórias de mil amores
Que não tinhas, repetir?

Que hão-de eles dizer agora?
Que pendente e de quem chora
É o teu lânguido olhar?
Que a tez fina e delicada
Foi de ser muito beijada,
Que te veio a desbotar?

deixa-os: pálida ou corada,
Que isenta ou namorada,
Que brilhe no prado flor,
Que fulja no céu estrela,
Ainda é ditosa e bela
Se lhe dão só um amor.


Almeida Garrett

Rosa pálida, em meu seio
Vem querida, sem receio
esconder a aflita cor.
Ai! a minha pobre rosa!
Cuida que é menos formosa
Porque desbotou de amor.

Pois sim... quando livre, ao vento,
Solta da alma e pensamento,
Forte de sua isenção.
Tinhas na folha incendiada
O sangue, o calor e a vida
Que ora tens no coração.

Mas não era, não, mais bela,
Coitada, coitada dela,
A minha rosa gentil!
Curvavam-na então desejos,
Desmaiam-na agora os beijos...
Vales mais mil vezes, mil.

Inveja das outras flores!
Inveja de quê, amores?
Tu, que vieste dos céus,
Comparar tua beleza
Às folhas da natureza!
Rosa, não tentes a Deus.

É vergonha... de quê, vida?
Vergonha de ser querida,
Vergonha de ser feliz!
Porquê? Porquê em teu semblante
A pálida cor da amante
A minha ventura diz?

Pois, quando eras tão vermelha
Não vinha zangão e abelha
Em torno de ti zumbir?
Não ouvias entre as flores
Histórias de mil amores
Que não tinhas, repetir?

Que hão-de eles dizer agora?
Que pendente e de quem chora
É o teu lânguido olhar?
Que a tez fina e delicada
Foi de ser muito beijada,
Que te veio a desbotar?

deixa-os: pálida ou corada,
Que isenta ou namorada,
Que brilhe no prado flor,
Que fulja no céu estrela,
Ainda é ditosa e bela
Se lhe dão só um amor.


Almeida Garrett

Almeida Garrett


João Batista da Silva Leitão de Almeida, nome completo do escritor, nasceu no Porto em 1799 e faleceu em Lisboa em 1854.
O apelido irlandês está na genealogia da família: Garrett é o nome da sua avó paterna, que veio para Portugal no séquito de uma princesa.
Na adolescência foi viver para os Açores, em Angra do Heroísmo, quando as tropas francesas de Napoleão Bonaparte invadiram Portugal e onde era instruído pelo tio, D. Alexandre, bispo de Angra. Em 1816 seguiu para Coimbra, onde se matriculou no curso de Direito. Em 1821 publicou O Retrato de Vênus, trabalho que lhe custou um processo por ser considerado materialista, ateu e imoral.E neste mesmo ano que ele e sua família passam a usar o apelido de Almeida Garrett.

Participou da revolução liberal de 1820, seguindo para o exílio na Inglaterra em 1823, após a Vilafrancada. Antes havia casado com Luísa Midosi, de apenas 14 anos. Foi em Inglaterra que tomou contacto com o movimento romântico, descobrindo Shakespeare, Walter Scott e outros autores e visitando castelos feudais e ruínas de igrejas e abadias góticas, vivências que se refletiriam na sua obra posterior. Em 1824, seguiu para França, onde escreveu Camões (1825) e Dona Branca (1826), poemas geralmente considerados como as primeiras obras da literatura romântica em Portugal. Em 1826 foi anistiado e regressou à pátria com os últimos emigrados dedicando-se ao jornalismo, fundando e dirigindo o jornal diário O Português (1826-1827) e o semanário O Cronista (1827). Teria de deixar Portugal novamente em 1828, com o regresso do Rei absolutista D. Miguel. Ainda nesse ano perdeu a filha recém-nascida. Novamente em Inglaterra, publica Adozinda (1828) e Catão (1828).

Juntamente com Alexandre Herculano e Joaquim António de Aguiar, tomou parte no Desembarque do Mindelo e no Cerco do Porto em 1832 e 1833.

A vitória do Liberalismo permitiu-lhe instalar-se novamente em Portugal, após curta estadia em Bruxelas como cônsul-geral e encarregado de negócios, onde lê Schiller, Goethe e Herder. Em Portugal exerceu cargos políticos, distinguindo-se nos anos 30 e 40 como um dos maiores oradores nacionais. Foram de sua iniciativa a criação do Conservatório de Arte Dramática, da Inspecção-Geral dos Teatros, do Panteão Nacional e do Teatro Normal (atualmente Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa). Mais do que construir um teatro, Garrett procurou sobretudo renovar a produção dramática nacional segundo os cânones já vigentes no estrangeiro.

Com a vitória cartista e o regresso de Costa Cabral ao governo, Almeida Garrett afasta-se da vida política até 1852.Contudo, em 1850 subscreveu, com mais de 50 personalidades, um protesto contra a proposta sobre a liberdade de imprensa, mais conhecida por “lei das rolhas”.

A vida de Garrett foi tão apaixonante quanto a sua obra. Revolucionário nos anos 20 e 30, distinguiu-se posteriormente sobretudo como o tipo perfeito do dandy, ou janota, tornando-se árbitro de elegâncias e príncipe dos salões mundanos.Foi um homem de muitos amores, uma espécie de homem fatal. Separado da esposa, passa a viver em mancebia com D. Adelaide Pastor até à morte desta em 1841. A partir de 1846, a sua musa é a viscondessa da Luz, Rosa Montufar Infante, inspiradora dos arroubos românticos das Folhas caídas. Em 1851, Garrett é feito visconde de Almeida Garrett em duas vidas, e em 1852 sobraça, por poucos dias, a pasta dos Negócios Estrangeiros em governo presidido pelo Duque de Saldanha.

Falece em 1854, vítima de cancer ,em Lisboa, na sua casa situada na atual Rua Saraiva de Carvalho, em Campo de Ourique.

OBRAS

1819 Lucrécia
1821 O Retrato de Vénus; Catão (representação); Mérope (representação)
1822 O Toucador
1825 Camões
1826 Dona Branca
1828 Adozinda
1829 Lírica de João Mínimo; Da Educação (ensaio)
1830 Portugal na Balança da Europa (ensaio)
1838 Um Auto de Gil Vicente
1841 O Alfageme de Santarém (1842 segundo algumas fontes)
1843 Romanceiro e Cancioneiro Geral - tomo 1; Frei Luís de Sousa (representação)
1845 O Arco de Sant'Ana - tomo 1; Flores sem fruto
1846 Viagens na minha terra; D. Filipa de Vilhena (inclui Falar Verdade a Mentir e Tio Simplício)
1848 As profecias do Bandarra; Um Noivado no Dafundo; A sobrinha do Marquês
1849 Memória Histórica de J. Xavier Mouzinho da Silveira
1850 O Arco de Sant'Ana - tomo 2;
1851 Romanceiro e Cancioneiro Geral - tomos 2 e 3
1853 Folhas Caídas
1871 Discursos Parlamentares e Memórias Biográficas (antologia póstuma)

Fonte: Comunidade Biografia e Poesia Portuguesa

Almeida Garrett


João Batista da Silva Leitão de Almeida, nome completo do escritor, nasceu no Porto em 1799 e faleceu em Lisboa em 1854.
O apelido irlandês está na genealogia da família: Garrett é o nome da sua avó paterna, que veio para Portugal no séquito de uma princesa.
Na adolescência foi viver para os Açores, em Angra do Heroísmo, quando as tropas francesas de Napoleão Bonaparte invadiram Portugal e onde era instruído pelo tio, D. Alexandre, bispo de Angra. Em 1816 seguiu para Coimbra, onde se matriculou no curso de Direito. Em 1821 publicou O Retrato de Vênus, trabalho que lhe custou um processo por ser considerado materialista, ateu e imoral.E neste mesmo ano que ele e sua família passam a usar o apelido de Almeida Garrett.

Participou da revolução liberal de 1820, seguindo para o exílio na Inglaterra em 1823, após a Vilafrancada. Antes havia casado com Luísa Midosi, de apenas 14 anos. Foi em Inglaterra que tomou contacto com o movimento romântico, descobrindo Shakespeare, Walter Scott e outros autores e visitando castelos feudais e ruínas de igrejas e abadias góticas, vivências que se refletiriam na sua obra posterior. Em 1824, seguiu para França, onde escreveu Camões (1825) e Dona Branca (1826), poemas geralmente considerados como as primeiras obras da literatura romântica em Portugal. Em 1826 foi anistiado e regressou à pátria com os últimos emigrados dedicando-se ao jornalismo, fundando e dirigindo o jornal diário O Português (1826-1827) e o semanário O Cronista (1827). Teria de deixar Portugal novamente em 1828, com o regresso do Rei absolutista D. Miguel. Ainda nesse ano perdeu a filha recém-nascida. Novamente em Inglaterra, publica Adozinda (1828) e Catão (1828).

Juntamente com Alexandre Herculano e Joaquim António de Aguiar, tomou parte no Desembarque do Mindelo e no Cerco do Porto em 1832 e 1833.

A vitória do Liberalismo permitiu-lhe instalar-se novamente em Portugal, após curta estadia em Bruxelas como cônsul-geral e encarregado de negócios, onde lê Schiller, Goethe e Herder. Em Portugal exerceu cargos políticos, distinguindo-se nos anos 30 e 40 como um dos maiores oradores nacionais. Foram de sua iniciativa a criação do Conservatório de Arte Dramática, da Inspecção-Geral dos Teatros, do Panteão Nacional e do Teatro Normal (atualmente Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa). Mais do que construir um teatro, Garrett procurou sobretudo renovar a produção dramática nacional segundo os cânones já vigentes no estrangeiro.

Com a vitória cartista e o regresso de Costa Cabral ao governo, Almeida Garrett afasta-se da vida política até 1852.Contudo, em 1850 subscreveu, com mais de 50 personalidades, um protesto contra a proposta sobre a liberdade de imprensa, mais conhecida por “lei das rolhas”.

A vida de Garrett foi tão apaixonante quanto a sua obra. Revolucionário nos anos 20 e 30, distinguiu-se posteriormente sobretudo como o tipo perfeito do dandy, ou janota, tornando-se árbitro de elegâncias e príncipe dos salões mundanos.Foi um homem de muitos amores, uma espécie de homem fatal. Separado da esposa, passa a viver em mancebia com D. Adelaide Pastor até à morte desta em 1841. A partir de 1846, a sua musa é a viscondessa da Luz, Rosa Montufar Infante, inspiradora dos arroubos românticos das Folhas caídas. Em 1851, Garrett é feito visconde de Almeida Garrett em duas vidas, e em 1852 sobraça, por poucos dias, a pasta dos Negócios Estrangeiros em governo presidido pelo Duque de Saldanha.

Falece em 1854, vítima de cancer ,em Lisboa, na sua casa situada na atual Rua Saraiva de Carvalho, em Campo de Ourique.

OBRAS

1819 Lucrécia
1821 O Retrato de Vénus; Catão (representação); Mérope (representação)
1822 O Toucador
1825 Camões
1826 Dona Branca
1828 Adozinda
1829 Lírica de João Mínimo; Da Educação (ensaio)
1830 Portugal na Balança da Europa (ensaio)
1838 Um Auto de Gil Vicente
1841 O Alfageme de Santarém (1842 segundo algumas fontes)
1843 Romanceiro e Cancioneiro Geral - tomo 1; Frei Luís de Sousa (representação)
1845 O Arco de Sant'Ana - tomo 1; Flores sem fruto
1846 Viagens na minha terra; D. Filipa de Vilhena (inclui Falar Verdade a Mentir e Tio Simplício)
1848 As profecias do Bandarra; Um Noivado no Dafundo; A sobrinha do Marquês
1849 Memória Histórica de J. Xavier Mouzinho da Silveira
1850 O Arco de Sant'Ana - tomo 2;
1851 Romanceiro e Cancioneiro Geral - tomos 2 e 3
1853 Folhas Caídas
1871 Discursos Parlamentares e Memórias Biográficas (antologia póstuma)

Fonte: Comunidade Biografia e Poesia Portuguesa

Não és tu


Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,
Ingênuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu...ai! não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.


Almeida Garrett

Não és tu


Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,
Ingênuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu...ai! não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.


Almeida Garrett

2 de abr. de 2009

Encontro

Tela de Jean Leon Gerome

Que vens contar-me se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo: chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber: que a ciência aprenda comigo já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre que dá para donde vim.

Almada Negreiros

Encontro

Tela de Jean Leon Gerome

Que vens contar-me se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo: chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber: que a ciência aprenda comigo já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça se me agrada não ter horas a toda a hora?

A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas se este é o meu auge?!

Eu tive a dita de me terem roubado tudo menos a minha torre de marfim.

Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.

Só não sei que faça da porta da torre que dá para donde vim.

Almada Negreiros

Almada Negreiros


José Sobral de Almada Negreiros é uma das figuras marcantes da geração modernista de "Orpheu". Nasceu em São Tomé e Príncipe a 7 de Abril de 1893 e morreu em Lisboa a 15 de Junho de 1970.

Filho do tenente de cavalaria António Lobo de Almada Negreiros, administrador do concelho de S. Tomé e de Elvira Sobral, foi educado no Colégio de Campolide, dos Jesuítas, e mais tarde, devido à extinção do Colégio em 1910, e por pouco tempo, no Liceu de Coimbra.

“Em 1911 ingressa na Escola Internacional de Lisboa, que tem um ensino mais moderno, e onde lhe proporcionam um espaço que lhe vai servir de oficina. e publica o primeiro desenho n'A Sátira. Em 1912 redige e ilustra integralmente o jornal manuscrito A Paródia, reproduzido a copiógrafo na Escola, expõe no I Salão dos Humoristas Portugueses, e colabora com desenhos para várias publicações.

Em 1913 realiza a primeira exposição individual, apresentando cerca de 90 desenhos na Escola Internacional, e conhece Fernando Pessoa, que escrevera uma crítica à exposição n'A Águia. Continua a colaborar como ilustrador para várias publicações, e em 1914 torna-se diretor artístico do semanário monárquico Papagaio Real.

No ano seguinte, escreve a novela A Engomadeira, publicada em 1917, onde aplica o interseccionismo teorizado por Fernando Pessoa, abeirando-se do surrealismo. Colabora no primeiro número da revista Orpheu, depreciado por Júlio Dantas, que afirma que não há justificação para o sucesso da revista e para a publicidade feita ao seu redor, afirmando que os autores são pessoas sem juízo. Ainda nesse ano de 1915, Almada realiza o bailado O Sonho da Rosa.

Em 21 de Outubro do mesmo ano estreia-se a peça de Júlio Dantas Soror Mariana. Almada irá reagir com a publicação do Manifesto Anti-Dantas.

O Manifesto causa algum impacto nos meios artísticos. Almada começa a corresponder-se com Sonia Delaunay, refugiada em Portugal com o marido por motivo da Guerra que assola a Europa. Publica o Manifesto da exposição de Amadeo de Souza Cardoso, com o título Primeira Descoberta de Portugal na Europa no Século XX.

Em 1917 realiza, vestido de operário, a conferência Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, e publica a novela K4 O Quadrado Azul, que inspirou o quadro homônimo de Eduardo Viana. 1918, é quase inteiramente dedicado ao bailado integrando o grupo de Helena de Castelo Melhor.

Em 1919, com o fim da Primeira Guerra Mundial, parte para Paris, onde exerce atividades de sobrevivência, e escreve Histoire du Portugal para coeur, publicada em 1922, mas regressa no ano seguinte.

Em 1921 começa a colaboração com António Ferro, que o apresenta quando Almada realiza a conferência A Invenção do Corpo, como "o imaginário na terra dos cegos", e posteriormente o convida para desenhar para a Ilustração Portuguesa. Em 1923 Almada desenhará a capa do livro de Ferro, A Arte de Bem Morrer, continuando a produzir ilustrações para revistas, cartazes para empresas e publicando peças como Pierrot e Arlequim (1924), romances como Nome de Guerra (1925) e ensaios como A Questão dos Painéis; a história de um acaso de uma importante descoberta e do seu autor (1926).

De 1927 a 1932 vive em Espanha, e em 1934 casa com a pintora Sarah Afonso. Começa a ser solicitado regularmente para a realização de trabalhos de índole oficial, como seja um selo para a emissão comemorativa da 1.ª Exposição Colonial, um cartaz para o álbum Portugal 1934 editado pelo Secretariado da Propaganda Nacional e ilustrações para o programa das Festas da Cidade de Lisboa, e sobretudo começa os estudos para os vitrais a colocar na Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa, que concluirá em 1938. Esta colaboração com a «Política do Espírito» de António Ferro culmina em 1941, quando o S.P.N. organiza a exposição Almada - Trinta Anos de Desenho, e o convida a participar na 6.ª Exposição de Arte Moderna e na exposição Artistas Portugueses apresentada no Rio de Janeiro, no Brasil e lhe atribui, em 1942, o Prêmio Columbano.

De 1943 a 1948 a sua atividade incide na realização dos frescos das Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, sendo-lhe atribuído o Prêmio Domingos Sequeira em 1946.

Regressa à realização de vitrais em 1951, desenhando os da Igreja do Santo Condestável, Lisboa, e os da Capela de S. Gabriel, em Vendas Novas, e à pintura em 1954, quando pinta o Retrato de Fernando Pessoa.

A sua atividade, no final dos anos 50, incide na decoração de obras de arquitetura, como sejam:

- painéis para o Bloco (Edifício) das Águas Livres e frescos para a Escola Patrício Prazeres (1956);

- decoração das fachadas dos edifícios da Cidade Universitária (1957);

- cartões de tapeçaria para a Exposição de Lausanne, o Tribunal de Contas e o Hotel de Santa Luzia de Viana do Castelo (1958) e o Palácio da Justiça de Aveiro (1962);

Realiza as suas últimas obras em 1969 - o painel Começar no átrio da Fundação Calouste Gulbenkian, começado no ano anterior, e os frescos Verão na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra.

Em 15 de Junho de 1970 morre no Hospital de São Luís dos Franceses, no mesmo quarto em que tinha morrido Fernando Pessoa.

OBRAS

K4 O Quadrado Azul(2000)
Nome de Guerra (2001)
Ficções(2002)
A Invenção do Dia Claro (2005)
Poemas (2005)
Manifestos e Conferências (2006)

Fonte: Comunidade ORKUT, Biografia e Poesia Portuguesa.

Almada Negreiros


José Sobral de Almada Negreiros é uma das figuras marcantes da geração modernista de "Orpheu". Nasceu em São Tomé e Príncipe a 7 de Abril de 1893 e morreu em Lisboa a 15 de Junho de 1970.

Filho do tenente de cavalaria António Lobo de Almada Negreiros, administrador do concelho de S. Tomé e de Elvira Sobral, foi educado no Colégio de Campolide, dos Jesuítas, e mais tarde, devido à extinção do Colégio em 1910, e por pouco tempo, no Liceu de Coimbra.

“Em 1911 ingressa na Escola Internacional de Lisboa, que tem um ensino mais moderno, e onde lhe proporcionam um espaço que lhe vai servir de oficina. e publica o primeiro desenho n'A Sátira. Em 1912 redige e ilustra integralmente o jornal manuscrito A Paródia, reproduzido a copiógrafo na Escola, expõe no I Salão dos Humoristas Portugueses, e colabora com desenhos para várias publicações.

Em 1913 realiza a primeira exposição individual, apresentando cerca de 90 desenhos na Escola Internacional, e conhece Fernando Pessoa, que escrevera uma crítica à exposição n'A Águia. Continua a colaborar como ilustrador para várias publicações, e em 1914 torna-se diretor artístico do semanário monárquico Papagaio Real.

No ano seguinte, escreve a novela A Engomadeira, publicada em 1917, onde aplica o interseccionismo teorizado por Fernando Pessoa, abeirando-se do surrealismo. Colabora no primeiro número da revista Orpheu, depreciado por Júlio Dantas, que afirma que não há justificação para o sucesso da revista e para a publicidade feita ao seu redor, afirmando que os autores são pessoas sem juízo. Ainda nesse ano de 1915, Almada realiza o bailado O Sonho da Rosa.

Em 21 de Outubro do mesmo ano estreia-se a peça de Júlio Dantas Soror Mariana. Almada irá reagir com a publicação do Manifesto Anti-Dantas.

O Manifesto causa algum impacto nos meios artísticos. Almada começa a corresponder-se com Sonia Delaunay, refugiada em Portugal com o marido por motivo da Guerra que assola a Europa. Publica o Manifesto da exposição de Amadeo de Souza Cardoso, com o título Primeira Descoberta de Portugal na Europa no Século XX.

Em 1917 realiza, vestido de operário, a conferência Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, e publica a novela K4 O Quadrado Azul, que inspirou o quadro homônimo de Eduardo Viana. 1918, é quase inteiramente dedicado ao bailado integrando o grupo de Helena de Castelo Melhor.

Em 1919, com o fim da Primeira Guerra Mundial, parte para Paris, onde exerce atividades de sobrevivência, e escreve Histoire du Portugal para coeur, publicada em 1922, mas regressa no ano seguinte.

Em 1921 começa a colaboração com António Ferro, que o apresenta quando Almada realiza a conferência A Invenção do Corpo, como "o imaginário na terra dos cegos", e posteriormente o convida para desenhar para a Ilustração Portuguesa. Em 1923 Almada desenhará a capa do livro de Ferro, A Arte de Bem Morrer, continuando a produzir ilustrações para revistas, cartazes para empresas e publicando peças como Pierrot e Arlequim (1924), romances como Nome de Guerra (1925) e ensaios como A Questão dos Painéis; a história de um acaso de uma importante descoberta e do seu autor (1926).

De 1927 a 1932 vive em Espanha, e em 1934 casa com a pintora Sarah Afonso. Começa a ser solicitado regularmente para a realização de trabalhos de índole oficial, como seja um selo para a emissão comemorativa da 1.ª Exposição Colonial, um cartaz para o álbum Portugal 1934 editado pelo Secretariado da Propaganda Nacional e ilustrações para o programa das Festas da Cidade de Lisboa, e sobretudo começa os estudos para os vitrais a colocar na Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa, que concluirá em 1938. Esta colaboração com a «Política do Espírito» de António Ferro culmina em 1941, quando o S.P.N. organiza a exposição Almada - Trinta Anos de Desenho, e o convida a participar na 6.ª Exposição de Arte Moderna e na exposição Artistas Portugueses apresentada no Rio de Janeiro, no Brasil e lhe atribui, em 1942, o Prêmio Columbano.

De 1943 a 1948 a sua atividade incide na realização dos frescos das Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, sendo-lhe atribuído o Prêmio Domingos Sequeira em 1946.

Regressa à realização de vitrais em 1951, desenhando os da Igreja do Santo Condestável, Lisboa, e os da Capela de S. Gabriel, em Vendas Novas, e à pintura em 1954, quando pinta o Retrato de Fernando Pessoa.

A sua atividade, no final dos anos 50, incide na decoração de obras de arquitetura, como sejam:

- painéis para o Bloco (Edifício) das Águas Livres e frescos para a Escola Patrício Prazeres (1956);

- decoração das fachadas dos edifícios da Cidade Universitária (1957);

- cartões de tapeçaria para a Exposição de Lausanne, o Tribunal de Contas e o Hotel de Santa Luzia de Viana do Castelo (1958) e o Palácio da Justiça de Aveiro (1962);

Realiza as suas últimas obras em 1969 - o painel Começar no átrio da Fundação Calouste Gulbenkian, começado no ano anterior, e os frescos Verão na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra.

Em 15 de Junho de 1970 morre no Hospital de São Luís dos Franceses, no mesmo quarto em que tinha morrido Fernando Pessoa.

OBRAS

K4 O Quadrado Azul(2000)
Nome de Guerra (2001)
Ficções(2002)
A Invenção do Dia Claro (2005)
Poemas (2005)
Manifestos e Conferências (2006)

Fonte: Comunidade ORKUT, Biografia e Poesia Portuguesa.

1 de abr. de 2009

O Beijo



Beijo na face,
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá !

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá !

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
Vá !

Guardo segredo,
Não tenha medo:
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê !

Como ele é doce !
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio !
Saciar-me veio,
Amor !

Saciar-me? Louco...
Um é tão pouco,
Flor !
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor !

Talvez te leve
O vento em breve,
Flor !
A vida foge,
A vida é hoje,
Amor !

Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois !
Um mais na face,
E a mais não passe !
Dois...

Oh ! dois? piedade !
Coisas tão boas...
Vês ?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três !

Três é a conta
Certinha e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta !
Três !

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
Três.

As folhas santas
Que o lírio fecham,
Vês?
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
Três !

João de Deus

O Beijo



Beijo na face,
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá !

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá !

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
Vá !

Guardo segredo,
Não tenha medo:
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê !

Como ele é doce !
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio !
Saciar-me veio,
Amor !

Saciar-me? Louco...
Um é tão pouco,
Flor !
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor !

Talvez te leve
O vento em breve,
Flor !
A vida foge,
A vida é hoje,
Amor !

Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois !
Um mais na face,
E a mais não passe !
Dois...

Oh ! dois? piedade !
Coisas tão boas...
Vês ?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três !

Três é a conta
Certinha e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta !
Três !

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
Três.

As folhas santas
Que o lírio fecham,
Vês?
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
Três !

João de Deus

João de Deus


De seu nome completo João de Deus Ramos, poeta lírico, dos maiores da língua portuguesa, nasceu em S. Bartolomeu de Messines (Algarve) em 8-03-1830 e morreu em Lisboa a 11-01-1896. Era filho de José Pedro Ramos comerciante, e de D. Isabel Gertrudes Martins.

A primeira instrução recebeu-a em casa, aprendendo então o latim. Em 1849 partiu para Coimbra, e ali, no seminário episcopal, terminou os preparatórios para ir cursar o Direito na Universidade.

O seu desenvolvimento espiritual nada deveu ao ensino universitário, que se achava então num dos seus períodos de maior decadência. No ano de 1850-51 ficou em S. Bartolomeu de Messines, perdendo o curso a que pertencia, e foi então que compôs a sua primeira poesia.

Voltou à Universidade em 1851-52 como «adventício do 2.º ano». Matriculado no 4.º ano jurídico de 1853-54, perdeu-o por faltas.
Em 1854-55 matriculou-se outra vez no 4.º ano jurídico e no 1.º curso administrativo. Em 1855, datada de 15 de Junho, apareceu a sua elegia Oração, com a dedicatória: «À Ex.ma Senhora D. R. C. N.». Era a gentil D. Raquel Nazaré, de uma conhecida família de Coimbra. Pouco tempo passado falecia ela, quase logo depois seguida pela mãe. Sob esta impressão escreveu o poeta outra elegia, com o título de Raquel, dedicada à irmã da falecida, D. Cândida Nazaré.

Tomado o grau de bacharel não regressou à Universidade nos anos de 56 a 58 chegando a pensar em que não terminaria a formatura. A prolongada doença de uma irmã fê-lo regressar a Coimbra em 1858 matriculando-se então no 5.º ano.
A formatura de João de Deus, como ele próprio pitorescamente dizia, «levou 10 anos, como a guerra de Tróia». Ao tempo em que se matriculava finalmente no 5.º ano, com um atraso de 4, tomava matrícula no 1.º Antero de Quental, que desde logo o admirou e exaltou muito. Em 1860, escrevia sobre João de Deus o futuro poeta dos Sonetos: « João de Deus é um desses mancebos, ricos de crença e de esperança, que se erguem por vezes no meio das turba entoando um cântico cheio de frescor e de vida, de bela e poderosa originalidade.

O que é hoje é já bastante; muito, porém, o que pode e deve ser. É muito porque é natural, porque escreve o que sente e quanto sente. Exalta-se pela imaginação, e, sustentando-se aí porque o entusiasmo lhe vem da alma, faz-nos amar e crer, chorar e sofrer com ele, porque o sentimento é real, brota do íntimo.

Homem, chora e alegra-se crê e duvida, como todos nós, como tudo que tem alma, como tudo que aspira ao infinito e se sente encadeado nesta prisão, vendo flutuar eternamente ante si o grande problema da verdade; poeta, sentindo em si a necessidade fatal de exprimir em cantos tudo que lhe vai dentro, diz o que sente na forma que lhe brota espontânea da ideia, fala a linguagem de seu coração… Lendo-se, conhece-se que não é uma inspiração fictícia aquela, porque só a verdade tem o poder de fazer sentir tudo quanto a palavra representa.

Naqueles versos há uma existência de homem que fala; como que se vê palpitar a vida e bater o sangue na artéria». E, continuando a fazer considerações sobre a poesia a propósito de João de Deus, o jovem Antero observava: «A verdade, eis a suma de toda essa legislação» (da estética). Ser natural, eis o supremo preceito». «Verdade», «naturalidade», eram com efeito palavras perfeitamente ajustadas à poesia de João de Deus.

Terminada a formatura em 1859, João de Deus deixou-se ficar em Coimbra no meio dos companheiros estudantes, até ao ano de 1862. Antero interessou-se por que se editassem as poesias compostas pelo seu amigo, e quanto se coligiu para essa edição, que nunca chegou a efetuar-se, foi parar à Biblioteca de Évora, constando de 33 poesias, características da sua primeira fase.

Nos últimos anos de Coimbra propendeu para a sátira, onde se manteve sempre bastante abaixo das alturas a que subiu na lírica. Indo de regresso para o Algarve em 1862, demorou-se em Beja, contratado para a redação do periódico O Bejense. Ocupou-se nessas funções até 1864, deixando ali muitas composições líricas. Em 1868 apareceram as suas poesias coligidas em volume com o título de Flores do Campo, depois de andarem reproduzidas por jornais. Em 1869 foi eleito deputado por Silves, por influência de José António Garcia Blanco e Domingos Vieira, o que levou o poeta a fixar residência em Lisboa.

A política não o atraía, e aceitara a eleição sobretudo por condescendência ao pedido dos amigos; por isso só se conservou numa legislatura, raras vezes aparecendo na Câmara. Durante esse tempo sofreu grandes privações. Passava grande parte do dia e da noite no café Martinho, cavaqueando. O casamento com D. Guilhermina Battaglia (v.) fê-lo abandonar esse costume.

Em 1888 obtiveram para ele a nomeação de comissário geral do ensino da leitura segundo o método de que era autor, e que foi declarado nacional (v. Cartilha Maternal). Em 1868 apareceram as suas poesias coligidas sob o título de Flores do Campo, publicadas por José António Garcia Blanco; em 1878 saiu no Porto uma 2.ª edição, sendo de 1869 a colectânea Ramo de flores. De 1893 é a edição com o título Campo de Flores, organizada por Teófilo Braga, que coligiu tudo que do poeta havia disperso.

O autor deixou em meio uma nova edição do Campo de Flores, que saiu em 1896, na qual foram inclusas mais 120 poesias que se encontravam em diferentes jornais. Em 8-III-1895 fez-se-lhe uma manifestação promovida pela juventude das escolas, apoteose majestosa, como nunca se vira em Lisboa. No cortejo que o foi saudar a casa, iam todos os estudantes das escolas superiores e inferiores de Lisboa, os da Universidade de Coimbra, do Porto, Santarém, Braga, Lamego e Portalegre, etc., com seus estandartes; representava-se toda a imprensa portuguesa, tunas académicas, povo, crianças.

A Academia Real das Ciências e o Instituto de Coimbra proclamaram-no seu sócio de honra. Seguiu-se à manifestação, que se repetira no dia 9, um sarau em D. Maria, a que foi assistir o Rei D. Carlos I e o poeta saiu da sala por sobre capas de estudantes, sendo levado a casa num trem a que os rapazes desatrelaram os cavalos e puxaram por cordas durante o trajeto. Falecido a 11-I-1896, o seu funeral foi outra manifestação verdadeiramente imponente e o corpo ficou no panteão dos Jerónimos, em Belém.


A poesia de João de Deus, de todo alheia a escolas, não tem a marca da respectiva época, conservando-se igualmente distante do erotismo falso, piegas, melodramático, pretensioso, de um degeneradíssimo lamartinismo, que caracterizou a obra dos ultra-românticos, e dos ideais filosóficos, científicos, revolucionários, próprios dos poetas típicos do Terceiro Romantismo. Indiferente a uma e outra escola, João de Deus ateve-se à verdade da sua maneira de ser, simples, ardorosa, encantada e elevada.

Os temas fundamentais da sua lírica são Deus e a mulher, a aspiração religiosa e o impulso erótico. Como escreveu José Régio, «desde a sensualidade cândida à veneração mística, o seu amor adeja buscando a forma, e atingindo o espírito em virtude da natural elevação e da imperturbável inocência do poeta. Inocente, nenhum poeta amoroso o foi mais que João de Deus.

A sua sensualidade expande-se em confissões e enlevos de tanta ingenuidade e frescura, que o desejo, várias vezes presente nos seus versos, aí aparece despido de toda a fealdade. Nada de obsceno, de pervertido, de culpado, de hipócrita, macula a puríssima naturalidade do seu impulso para a mulher. Deste amor sensual, embora alado, ergue-se o poeta ao culto da mulher. O seu amor sobe a chamar-se adoração; e é uma simpatia de alma enlevada, um apelo de ser íntimo e supremo, uma sedução espiritualizada pela religiosidade do amante. De tal amor, em que o poeta místico e o sensual se fundem, não irá grande distância, em certas naturezas, ao amor divino.

O poeta algumas vezes interroga e duvida; mas logo verga a cabeça no seio de seu criador. E a espontânea unção de seu espírito dita-lhe versos – todos os seus versos de carater piedoso – em que a luminosa simplicidade dos processos só tem rival na religiosidade do sentimento ou na originalidade da expressão». A primeira poesia escrita por João de Deus parece ter sido Pomba (1851), publicada primeiro no Eco do Lima e depois no Campo de Flores.

As revistas em que apareceram as suas primeiras produções poéticas, quase todas ditadas a amigos que depois as faziam sair a lume, foram:

Estreia Literária, Ateneu, Instituto (todas de Coimbra), Prelúdios literários, Fósforo, Academia, Renascença, Tira Teimas, Herculano, etc., etc. Além das edições já mencionadas, houve: Horácio e Lídia (uma ode de Horácio), Comédia num acto em verso por F. Ponsard, etc., traduzida também em verso, e acompanhada do original, Lisboa, 1872; Pires de marmelada, improviso académico, Lisboa, 1869; Despedidas do verão, poesias; Folhas soltas, Porto, 1876; Cartilha maternal de leitura, com numerosas edições a partir de 1876; A cartilha maternal e a imprensa, Lisboa, 1877; A cartilha maternal e o apostolado; a tradução dos Deveres dos filhos, obra de Th. H. Barrau, Lisboa, 1875; Dicionário prosódico de Portugal e Brasil, Lisboa, 1870; as traduções de quatro peças de Méry: Amemos o nosso próximo, parábola em 1 ato. Ser apresentado, comédia em 1 ato, Ensaio de casamento, comédia em 1 ato, A viúva inconsolável, comédia em 4 partes; a versão da Vida da Virgem Maria, de monsenhor Darboy, arcebispo de Paris, Lisboa, 1873; Grinalda de Maria, prosa do padre António Vieira, versos de João de Deus, Lisboa 1877;

Os Lusíadas e a conversação preambular, carta a Avelino de Sousa, 1880; Provérbios de Salomão, 1886, Campo de Flores, ed. Econômica, com mais 15 poesias que a anterior (1897), e Prosas, 1898 (póstumo). Em 1905 a antiga Casa Bertrand editou O Festival de João de Deus, apoteose da autoria de Teófilo Braga. Em 1930 saiu uma antologia da lírica, organizada por Afonso Lopes Vieira, com o título O Livro de amor de João de Deus (Lisboa, Bertrand).

O Algarve erigiu-lhe na Praça D. Francisco Gomes, em Faro um modesto monumento e a Câmara deu a uma das ruas próximas do Liceu, que também se denomina «Liceu João de Deus» o nome do grande poeta. No jardim Guerra Junqueiro, o antigo Passeio da Estrela, de Lisboa, foi inaugurado em 1942 um busto do poeta. Têm o nome de João de Deus os jardins-escola fundados por seu filho João de Deus Ramos.

OBRA POÉTICA

Flores do Campo (1868),
Folhas Soltas (1876) e
Campos de Flores(1893)

João de Deus


De seu nome completo João de Deus Ramos, poeta lírico, dos maiores da língua portuguesa, nasceu em S. Bartolomeu de Messines (Algarve) em 8-03-1830 e morreu em Lisboa a 11-01-1896. Era filho de José Pedro Ramos comerciante, e de D. Isabel Gertrudes Martins.

A primeira instrução recebeu-a em casa, aprendendo então o latim. Em 1849 partiu para Coimbra, e ali, no seminário episcopal, terminou os preparatórios para ir cursar o Direito na Universidade.

O seu desenvolvimento espiritual nada deveu ao ensino universitário, que se achava então num dos seus períodos de maior decadência. No ano de 1850-51 ficou em S. Bartolomeu de Messines, perdendo o curso a que pertencia, e foi então que compôs a sua primeira poesia.

Voltou à Universidade em 1851-52 como «adventício do 2.º ano». Matriculado no 4.º ano jurídico de 1853-54, perdeu-o por faltas.
Em 1854-55 matriculou-se outra vez no 4.º ano jurídico e no 1.º curso administrativo. Em 1855, datada de 15 de Junho, apareceu a sua elegia Oração, com a dedicatória: «À Ex.ma Senhora D. R. C. N.». Era a gentil D. Raquel Nazaré, de uma conhecida família de Coimbra. Pouco tempo passado falecia ela, quase logo depois seguida pela mãe. Sob esta impressão escreveu o poeta outra elegia, com o título de Raquel, dedicada à irmã da falecida, D. Cândida Nazaré.

Tomado o grau de bacharel não regressou à Universidade nos anos de 56 a 58 chegando a pensar em que não terminaria a formatura. A prolongada doença de uma irmã fê-lo regressar a Coimbra em 1858 matriculando-se então no 5.º ano.
A formatura de João de Deus, como ele próprio pitorescamente dizia, «levou 10 anos, como a guerra de Tróia». Ao tempo em que se matriculava finalmente no 5.º ano, com um atraso de 4, tomava matrícula no 1.º Antero de Quental, que desde logo o admirou e exaltou muito. Em 1860, escrevia sobre João de Deus o futuro poeta dos Sonetos: « João de Deus é um desses mancebos, ricos de crença e de esperança, que se erguem por vezes no meio das turba entoando um cântico cheio de frescor e de vida, de bela e poderosa originalidade.

O que é hoje é já bastante; muito, porém, o que pode e deve ser. É muito porque é natural, porque escreve o que sente e quanto sente. Exalta-se pela imaginação, e, sustentando-se aí porque o entusiasmo lhe vem da alma, faz-nos amar e crer, chorar e sofrer com ele, porque o sentimento é real, brota do íntimo.

Homem, chora e alegra-se crê e duvida, como todos nós, como tudo que tem alma, como tudo que aspira ao infinito e se sente encadeado nesta prisão, vendo flutuar eternamente ante si o grande problema da verdade; poeta, sentindo em si a necessidade fatal de exprimir em cantos tudo que lhe vai dentro, diz o que sente na forma que lhe brota espontânea da ideia, fala a linguagem de seu coração… Lendo-se, conhece-se que não é uma inspiração fictícia aquela, porque só a verdade tem o poder de fazer sentir tudo quanto a palavra representa.

Naqueles versos há uma existência de homem que fala; como que se vê palpitar a vida e bater o sangue na artéria». E, continuando a fazer considerações sobre a poesia a propósito de João de Deus, o jovem Antero observava: «A verdade, eis a suma de toda essa legislação» (da estética). Ser natural, eis o supremo preceito». «Verdade», «naturalidade», eram com efeito palavras perfeitamente ajustadas à poesia de João de Deus.

Terminada a formatura em 1859, João de Deus deixou-se ficar em Coimbra no meio dos companheiros estudantes, até ao ano de 1862. Antero interessou-se por que se editassem as poesias compostas pelo seu amigo, e quanto se coligiu para essa edição, que nunca chegou a efetuar-se, foi parar à Biblioteca de Évora, constando de 33 poesias, características da sua primeira fase.

Nos últimos anos de Coimbra propendeu para a sátira, onde se manteve sempre bastante abaixo das alturas a que subiu na lírica. Indo de regresso para o Algarve em 1862, demorou-se em Beja, contratado para a redação do periódico O Bejense. Ocupou-se nessas funções até 1864, deixando ali muitas composições líricas. Em 1868 apareceram as suas poesias coligidas em volume com o título de Flores do Campo, depois de andarem reproduzidas por jornais. Em 1869 foi eleito deputado por Silves, por influência de José António Garcia Blanco e Domingos Vieira, o que levou o poeta a fixar residência em Lisboa.

A política não o atraía, e aceitara a eleição sobretudo por condescendência ao pedido dos amigos; por isso só se conservou numa legislatura, raras vezes aparecendo na Câmara. Durante esse tempo sofreu grandes privações. Passava grande parte do dia e da noite no café Martinho, cavaqueando. O casamento com D. Guilhermina Battaglia (v.) fê-lo abandonar esse costume.

Em 1888 obtiveram para ele a nomeação de comissário geral do ensino da leitura segundo o método de que era autor, e que foi declarado nacional (v. Cartilha Maternal). Em 1868 apareceram as suas poesias coligidas sob o título de Flores do Campo, publicadas por José António Garcia Blanco; em 1878 saiu no Porto uma 2.ª edição, sendo de 1869 a colectânea Ramo de flores. De 1893 é a edição com o título Campo de Flores, organizada por Teófilo Braga, que coligiu tudo que do poeta havia disperso.

O autor deixou em meio uma nova edição do Campo de Flores, que saiu em 1896, na qual foram inclusas mais 120 poesias que se encontravam em diferentes jornais. Em 8-III-1895 fez-se-lhe uma manifestação promovida pela juventude das escolas, apoteose majestosa, como nunca se vira em Lisboa. No cortejo que o foi saudar a casa, iam todos os estudantes das escolas superiores e inferiores de Lisboa, os da Universidade de Coimbra, do Porto, Santarém, Braga, Lamego e Portalegre, etc., com seus estandartes; representava-se toda a imprensa portuguesa, tunas académicas, povo, crianças.

A Academia Real das Ciências e o Instituto de Coimbra proclamaram-no seu sócio de honra. Seguiu-se à manifestação, que se repetira no dia 9, um sarau em D. Maria, a que foi assistir o Rei D. Carlos I e o poeta saiu da sala por sobre capas de estudantes, sendo levado a casa num trem a que os rapazes desatrelaram os cavalos e puxaram por cordas durante o trajeto. Falecido a 11-I-1896, o seu funeral foi outra manifestação verdadeiramente imponente e o corpo ficou no panteão dos Jerónimos, em Belém.


A poesia de João de Deus, de todo alheia a escolas, não tem a marca da respectiva época, conservando-se igualmente distante do erotismo falso, piegas, melodramático, pretensioso, de um degeneradíssimo lamartinismo, que caracterizou a obra dos ultra-românticos, e dos ideais filosóficos, científicos, revolucionários, próprios dos poetas típicos do Terceiro Romantismo. Indiferente a uma e outra escola, João de Deus ateve-se à verdade da sua maneira de ser, simples, ardorosa, encantada e elevada.

Os temas fundamentais da sua lírica são Deus e a mulher, a aspiração religiosa e o impulso erótico. Como escreveu José Régio, «desde a sensualidade cândida à veneração mística, o seu amor adeja buscando a forma, e atingindo o espírito em virtude da natural elevação e da imperturbável inocência do poeta. Inocente, nenhum poeta amoroso o foi mais que João de Deus.

A sua sensualidade expande-se em confissões e enlevos de tanta ingenuidade e frescura, que o desejo, várias vezes presente nos seus versos, aí aparece despido de toda a fealdade. Nada de obsceno, de pervertido, de culpado, de hipócrita, macula a puríssima naturalidade do seu impulso para a mulher. Deste amor sensual, embora alado, ergue-se o poeta ao culto da mulher. O seu amor sobe a chamar-se adoração; e é uma simpatia de alma enlevada, um apelo de ser íntimo e supremo, uma sedução espiritualizada pela religiosidade do amante. De tal amor, em que o poeta místico e o sensual se fundem, não irá grande distância, em certas naturezas, ao amor divino.

O poeta algumas vezes interroga e duvida; mas logo verga a cabeça no seio de seu criador. E a espontânea unção de seu espírito dita-lhe versos – todos os seus versos de carater piedoso – em que a luminosa simplicidade dos processos só tem rival na religiosidade do sentimento ou na originalidade da expressão». A primeira poesia escrita por João de Deus parece ter sido Pomba (1851), publicada primeiro no Eco do Lima e depois no Campo de Flores.

As revistas em que apareceram as suas primeiras produções poéticas, quase todas ditadas a amigos que depois as faziam sair a lume, foram:

Estreia Literária, Ateneu, Instituto (todas de Coimbra), Prelúdios literários, Fósforo, Academia, Renascença, Tira Teimas, Herculano, etc., etc. Além das edições já mencionadas, houve: Horácio e Lídia (uma ode de Horácio), Comédia num acto em verso por F. Ponsard, etc., traduzida também em verso, e acompanhada do original, Lisboa, 1872; Pires de marmelada, improviso académico, Lisboa, 1869; Despedidas do verão, poesias; Folhas soltas, Porto, 1876; Cartilha maternal de leitura, com numerosas edições a partir de 1876; A cartilha maternal e a imprensa, Lisboa, 1877; A cartilha maternal e o apostolado; a tradução dos Deveres dos filhos, obra de Th. H. Barrau, Lisboa, 1875; Dicionário prosódico de Portugal e Brasil, Lisboa, 1870; as traduções de quatro peças de Méry: Amemos o nosso próximo, parábola em 1 ato. Ser apresentado, comédia em 1 ato, Ensaio de casamento, comédia em 1 ato, A viúva inconsolável, comédia em 4 partes; a versão da Vida da Virgem Maria, de monsenhor Darboy, arcebispo de Paris, Lisboa, 1873; Grinalda de Maria, prosa do padre António Vieira, versos de João de Deus, Lisboa 1877;

Os Lusíadas e a conversação preambular, carta a Avelino de Sousa, 1880; Provérbios de Salomão, 1886, Campo de Flores, ed. Econômica, com mais 15 poesias que a anterior (1897), e Prosas, 1898 (póstumo). Em 1905 a antiga Casa Bertrand editou O Festival de João de Deus, apoteose da autoria de Teófilo Braga. Em 1930 saiu uma antologia da lírica, organizada por Afonso Lopes Vieira, com o título O Livro de amor de João de Deus (Lisboa, Bertrand).

O Algarve erigiu-lhe na Praça D. Francisco Gomes, em Faro um modesto monumento e a Câmara deu a uma das ruas próximas do Liceu, que também se denomina «Liceu João de Deus» o nome do grande poeta. No jardim Guerra Junqueiro, o antigo Passeio da Estrela, de Lisboa, foi inaugurado em 1942 um busto do poeta. Têm o nome de João de Deus os jardins-escola fundados por seu filho João de Deus Ramos.

OBRA POÉTICA

Flores do Campo (1868),
Folhas Soltas (1876) e
Campos de Flores(1893)