NARCISO
Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!
Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!
Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:
Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
...Lá no fundo do poço em que me espelho
José Régio
Seja bem-vindo. Hoje é
27 de ago. de 2013
SARÇA ARDENTE — 32
SARÇA ARDENTE — 32
Pois de ti, que sei eu? Só sei que te amo,
E te recuso, e tu me foges, e ando
De ti e mim falando em sons que clamo
Como se fossem de se andar clamando...
Sei que existes na voz com que te chamo,
Como na com que fujo ao teu comando!
E sei que tudo o que não sei, um dia,
Nem saberei, sequer, que o não sabia....
José Régio
Pois de ti, que sei eu? Só sei que te amo,
E te recuso, e tu me foges, e ando
De ti e mim falando em sons que clamo
Como se fossem de se andar clamando...
Sei que existes na voz com que te chamo,
Como na com que fujo ao teu comando!
E sei que tudo o que não sei, um dia,
Nem saberei, sequer, que o não sabia....
José Régio
SARÇA ARDENTE — 22
SARÇA ARDENTE — 22
Se é vida este jogar a ser jogado
Nesta ora adoração do próprio umbigo
Ora ânsia de exceder curvo ou quadrado
De qualquer ventre ou de qualquer postigo,
Se é vida o expresso ou contraído brado
Deste lugar com todos e comigo,
Se é vida este contínuo e fruste parto,
Vivi, Senhor!, Vivi! Mas caí farto.
José Régio
LIBERTAÇÃO
LIBERTAÇÃO
Menino doido, olhei em roda, e vi-me
Fechado e só na grande sala escura.
(Abrir a porta, além de ser um crime,
Era impossível para a minha altura...)
Como passar o tempo?...E diverti-me
Desta maneira trágica e segura:
Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,
Desfiz trapos, arames, serradura...
Ah, meu menino histérico e precoce!
Tu, sim! Que tens mãos trágicas de posse,
E tens a inquietação da Descoberta!
O menino, por fim, tombou cansado;
O seu boneco aí jaz esfarelado...
E eu acho, nem sei como, a porta aberta!
José Régio
Menino doido, olhei em roda, e vi-me
Fechado e só na grande sala escura.
(Abrir a porta, além de ser um crime,
Era impossível para a minha altura...)
Como passar o tempo?...E diverti-me
Desta maneira trágica e segura:
Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,
Desfiz trapos, arames, serradura...
Ah, meu menino histérico e precoce!
Tu, sim! Que tens mãos trágicas de posse,
E tens a inquietação da Descoberta!
O menino, por fim, tombou cansado;
O seu boneco aí jaz esfarelado...
E eu acho, nem sei como, a porta aberta!
José Régio
IGNOTO DEO
IGNOTO DEO
Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.
Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.
Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,
Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!
José Régio
Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.
Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.
Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,
Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!
José Régio
FADO PORTUGUÊS
FADO PORTUGUÊS
O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
José Régio
O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
José Régio
ÍCARO
ÍCARO
A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.
Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...
Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:
Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.
José Régio
José Régio - Biografia
JOSÉ RÉGIO
José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira,
natural de Vila do Conde (Portugal) e o seu nascimento data de 1901.
Em Vila do Conde, terra onde viveu até acabar o quinto ano do liceu, publicou os seus primeiros poemas nos jornais, O Democrático e República.
Aos dezoito anos, José Régio, foi para Coimbra, onde licenciou-se em Filologia Românica(1925) com a tese «As Correntes e As Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa». Esta tese na época não teve muito sucesso, uma vez que valorizava poetas quase desconhecidos na altura, como Fernando Pessoa e Mário Sá-Carneiro, mas em 1941 foi publicada com o título Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa.
Em 1927, com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, fundou a revista Presença, que veio a ser publicada, irregularmente, durante treze anos. Esta revista veio a marcar o segundo modernismo português, que teve como principal impulsionador e ideólogo, José Régio.
Este, também escreveu em jornais como, Seara Nova, Ler, O Comércio do Porto e o Diário de Notícias. Foi neste mesmo ano que José Régio começou a lecionar num liceu no Porto, mas isto foi só até 1928, pois a partir desse ano, passou a lecionar em Portalegre, onde esteve por mais que trinta anos.
Em 1966, Régio, voltou para Vila do Conde, onde veio a morrer em 1.969.
José Régio teve durante a sua vida uma participação ativa na vida pública, mantendo-se fiel aos seus ideais socialistas, apesar do regime autoritário de então, e também, seguindo os gostos do irmão, Júlio Saul Dias, expressou o seu amor pelas artes plásticas, ilustrando um dos seus livros.
.
Como escritor, José Régio, dedicou-se ao ensaio, à poesia, ao texto dramático e à prosa. Refletindo durante toda a sua obra problemas relativos ao conflito entre Deus e o Homem, o indivíduo e a sociedade.
Usando sempre um tom psicologista e misticista, analisando a problemática da solidão e das relações humanas, ao mesmo tempo que levava a cabo uma auto-análise. José Régio é considerado um dos grandes vultos da moderna literatura portuguesa e recebeu em 1966 o Prêmio Diário de Notícias e em 1970 o Prêmio Nacional da Poesia. Hoje em dia, as suas casas em Vila do Conde e em Portalegre são casas-museu.
OBRA:
Poesia
• 1925 - Poemas de Deus e do Diabo.
• 1929 - Biografia.
• 1935 - As Encruzilhadas de Deus.
• 1945 - Fado (1941), Mas Deus é Grande.
• 1954 - A Chaga do Lado.
• 1961 - Filho do Homem.
• 1968 - Cântico Suspenso.
• 1970 - Música Ligeira.
• 1971 - Colheita da Tarde.
Ficção
• 1934 - Jogo da Cabra-Cega.
• 1941 - Davam Grandes Passeios aos Domingos.
• 1942 - O Príncipe com Orelhas de Burro.
• 1945 a 1966 - A Velha Casa.
• 1946 - Histórias de Mulheres.
• 1962 - Há Mais Mundos.
Ensaio
• 1936 - Críticas e Criticados.
• 1938 - António Botto e o Amor.
• 1940 - Em Torno da Expressão Artística.
• 1952 - As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa.
• 1964 - Ensaios de Interpretação Crítica.
• 1967 - Três Ensaios sobre Arte.
• 1977 - Páginas de Doutrina e Crítica da Presença.
Teatro
• 1940 - Jacob e o Anjo.
• 1947 - Benilde ou a Virgem-Mãe.
• 1949 - El-Rei Sebastião.
• 1954 - A Salvação do Mundo.
• 1957 - Três Peças em Um Acto.
Casa Museu José Régis
José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira,
natural de Vila do Conde (Portugal) e o seu nascimento data de 1901.
Em Vila do Conde, terra onde viveu até acabar o quinto ano do liceu, publicou os seus primeiros poemas nos jornais, O Democrático e República.
Aos dezoito anos, José Régio, foi para Coimbra, onde licenciou-se em Filologia Românica(1925) com a tese «As Correntes e As Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa». Esta tese na época não teve muito sucesso, uma vez que valorizava poetas quase desconhecidos na altura, como Fernando Pessoa e Mário Sá-Carneiro, mas em 1941 foi publicada com o título Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa.
Em 1927, com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, fundou a revista Presença, que veio a ser publicada, irregularmente, durante treze anos. Esta revista veio a marcar o segundo modernismo português, que teve como principal impulsionador e ideólogo, José Régio.
Este, também escreveu em jornais como, Seara Nova, Ler, O Comércio do Porto e o Diário de Notícias. Foi neste mesmo ano que José Régio começou a lecionar num liceu no Porto, mas isto foi só até 1928, pois a partir desse ano, passou a lecionar em Portalegre, onde esteve por mais que trinta anos.
Em 1966, Régio, voltou para Vila do Conde, onde veio a morrer em 1.969.
José Régio teve durante a sua vida uma participação ativa na vida pública, mantendo-se fiel aos seus ideais socialistas, apesar do regime autoritário de então, e também, seguindo os gostos do irmão, Júlio Saul Dias, expressou o seu amor pelas artes plásticas, ilustrando um dos seus livros.
.
Como escritor, José Régio, dedicou-se ao ensaio, à poesia, ao texto dramático e à prosa. Refletindo durante toda a sua obra problemas relativos ao conflito entre Deus e o Homem, o indivíduo e a sociedade.
Usando sempre um tom psicologista e misticista, analisando a problemática da solidão e das relações humanas, ao mesmo tempo que levava a cabo uma auto-análise. José Régio é considerado um dos grandes vultos da moderna literatura portuguesa e recebeu em 1966 o Prêmio Diário de Notícias e em 1970 o Prêmio Nacional da Poesia. Hoje em dia, as suas casas em Vila do Conde e em Portalegre são casas-museu.
OBRA:
Poesia
• 1925 - Poemas de Deus e do Diabo.
• 1929 - Biografia.
• 1935 - As Encruzilhadas de Deus.
• 1945 - Fado (1941), Mas Deus é Grande.
• 1954 - A Chaga do Lado.
• 1961 - Filho do Homem.
• 1968 - Cântico Suspenso.
• 1970 - Música Ligeira.
• 1971 - Colheita da Tarde.
Ficção
• 1934 - Jogo da Cabra-Cega.
• 1941 - Davam Grandes Passeios aos Domingos.
• 1942 - O Príncipe com Orelhas de Burro.
• 1945 a 1966 - A Velha Casa.
• 1946 - Histórias de Mulheres.
• 1962 - Há Mais Mundos.
Ensaio
• 1936 - Críticas e Criticados.
• 1938 - António Botto e o Amor.
• 1940 - Em Torno da Expressão Artística.
• 1952 - As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa.
• 1964 - Ensaios de Interpretação Crítica.
• 1967 - Três Ensaios sobre Arte.
• 1977 - Páginas de Doutrina e Crítica da Presença.
Teatro
• 1940 - Jacob e o Anjo.
• 1947 - Benilde ou a Virgem-Mãe.
• 1949 - El-Rei Sebastião.
• 1954 - A Salvação do Mundo.
• 1957 - Três Peças em Um Acto.
Casa Museu José Régis
4 de ago. de 2013
''Retrato''
Pensamentos se cruzam:
- encontro?!
Silêncios,
ausência presente,
convergência...
um ponto
rubro,
vivo,
no peito!...
Sim!
Joaquim do Carmo, 02/08/2013 (a publicar)
© (direitos reservados)
[Tela de Mihai Olteanu]
29 de jul. de 2013
"Quem que seja tu"
Quem quer que sejas tu, que neste abrigo
Vieste em hora mansa hoje parar.
Feliz! Vens encontrar aqui contigo
Os tesouros que andaste a procurar.
Vens encontrar, sob o silêncio amigo,
A paz do ouvido, e a glória do olhar.
E até, quem sabe? Aquele beijo antigo
que há muito tempo não sabias dar.
Vens encontrar, ( é tarde? Não importa),
Um bem que passou à tua porta.
Um grande amor, nem tu soubeste a quem.
E vens, ( tanta riqueza em toda a parte),
Vens a ti mesmo, atónito, encontrar-te.
Ès um poeta, e nunca o viste bem.
Joaquim Nunes Claro
de 'Cinza das Horas'
[Tela do pintor brasileiro Washington Maguetas]
''Partiste, e a serra idílica do vento''
Partiste, e a serra idílica do vento,
do mar, das névoas, mais das grandes luas,
manda dizer-te, amor, neste momento,
que. ficou triste, com saudades tuas.
E que, no inverno, enquanto o céu cinzento
tremer nos ramos e chorar nas ruas,
vestirá, com teu lindo pensamento,
as pedras pobres e as roseiras nuas.
E diz mais - que em abril, quando aí saias,
penses, ao ver florir perto as olaias,
naqueles que deixaste sem ninguém.
no sol, nas ervas, no luar, na altura.
- Só não te diz, porque é de pedra dura,
que tu penses, um pouco, em mim também!
Nunes Claro
de 'Cinza das horas'
''Vieste Tarde''
Vieste tarde, meu amor! Começa
Em mim caindo a neve devagar,
Morre o sol, o Outono cai depressa,
E o Inverno, finalmente, há-de chegar.
E se hoje andamos juntos, na promessa
De caminharmos toda a vida a par,
Daqui a pouco o teu amor tem pressa
E o meu, daqui a pouco, há-de cansar.
Dentro em breve, por trás das velhas portas,
Dando um ao outro só palavras mortas,
Que rolam mudas pelas nossas vidas,
Ouviremos, nas noites desoladas,
- Tu a canção das vozes desejadas,
Eu, o chorar das vozes esquecidas!
Joaquim Nunes Claro
de 'Cinza das horas"
(Lisboa, 20 de Abril de 1878 — Sintra, 4 de Maio de 1949, médico e escritor português)
''Pobres Rosas De Sintra''
Toma essas rosas de Dezembro, agora,
Que ao frio, à chuva, esta manhã colhi,
Elas trazem humildes, lá de fora,
Saudades da montanha até aqui.
Hão de morrer d’aqui a pouco, embora!
Em cada curva onde o perfume ri,
Trazem mais o terno duma hora,
Que um frágil coração bateu em ti.
Aceita-as pois, mas, como a vida é breve
E, um dia, perto, leve e branca a neve,
Há-de cair sobre o teu peito em flor,
(Não vá Dezembro algum murchar-te o encanto)
Deixa tu que eu te colha agora, enquanto
Tens sol, tens mocidade e tens amor.
Nunes Claro
De "Cinza das Horas"
27 de jul. de 2013
VENDAVAL
VENDAVAL
Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!
Indômita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!
Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.
Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles - teu pulso divida
Minh'alma do mundo!
Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar -
Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia
De eu ter que pensar!
Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver -
Porque é que não entras no meu pensamento
Para ele morrer?
Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, é vento; do chão da existência,
De ser um lugar!
E, pela alta noite que fazes mais'scura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.
E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!
Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!
Fernando Pessoa, 16-2-1920.
28 de mai. de 2013
"APARIÇÃO"
Na penumbra
Se vivem reflexos de esperança,
na pausa da incerteza!
Entre raios estelares,
Prenúncio de alva beleza,
Gritos doridos, cânticos,
Adoração e prece!
E, de uma voz doce,
Celestial, melodiosa,
Um chamamento de amor:
“dizei a todos que venham também...”!
E vieram... com fé,
E voltaram... em paz,
Procurando tal amor!
Joaquim do Carmo
em ‘Amanhecer Pelo Fim da Tarde”
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