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13 de nov de 2014

Coragem

Escutar o rumor da morte 
na rotina dos dias, 
no sangue das palavras, 
na dor, na perda, no tédio. 
E renascer a toda a hora 
com a inocente respiração da vida. 
Serenamente.

Graça Pires 
De Caderno de significados, 2013

8 de mai de 2014

EU NÃO SEI




Eu não sei de destino, de fado, devida,
Eu não sei de mentira, eu não sei de verdade,
Eu não sei nem de encantos de felicidade,
Eu não sei nem de amor nem de mágoa sentida!

Eu não sei de sorriso, alegria perdida,
Eu não sei de tristeza, eu não sei de saudade,
Eu não sei estar inteiro, tampouco metade,
Eu não sei de regresso, eu não sei de partida!

Eu não sei mais de claro e escuro na cidade,
Eu não sei de teus olhos, de luz prometida,
Eu não sei de desejo, nem se paixão arde!

Eu não sei da palavra que meu canto invade,
Eu não sei do silêncio, da folha caída,
Eu não sei de esperança: É cedo?...É tarde?...

Joaquim do Carmo
In Amanhecer pelo Fim da Tarde
Pag. 64.

28 de abr de 2014

ETERNIDADE



Conheci-te de noite: por isso te chamo estrela.
Conheci-te de dia: por isso te chamo claridade.
Conheci-te em todas as horas: por isso
te chamo eternidade.

Albano Martins,
in “Vocação do Silêncio”

TALVEZ



Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste:
talvez.
Esta é a única palavra
que não tem casa.
Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio…


- Albano Martins -
in Palinódias, palimpsestos

26 de abr de 2014

SE O TEMPO...



Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.

Albano Martins,
in Antologia Poética

9 de abr de 2014

ILHA DE COS




Eu sabia que tinha de haver um sítio
Onde o humano e o divino se tocassem
Não propriamente a terra do sagrado
Mas uma terra para o homem e para os deuses
Feitos à sua imagem e semelhança
Um lugar de harmonia
Com sua tragédia é certo
Mas onde a luz incita à busca da verdade
E onde o homem não tem outros limites
Senão os da sua própria liberdade

Manuel Alegre,
in Chegar aqui


Quinto Poema do Pescador



Eu não sei de oração senão perguntas
ou silêncios ou gestos ou ficar
de noite frente ao mar não de mãos juntas
mas a pescar.

Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber se Deus
é sim ou não.

Manuel Alegre
In ‘A Praça Da Canção’ ( 1975)







MAS QUE SEI EU



Mas que sei eu das folhas no Outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra fogueira qualquer.

Mas eu que sei destas manhãs?
as coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha


Ruy Belo
(In «todos os poemas)




2 de mar de 2014

''Em alguma vida fui ave''


Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em vôo rasante.

E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.

Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.

Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.

Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.

Em alguma ave fui vida.

(Mia Couto)

20 de fev de 2014

"FELIZ É O DIA'


Feliz é o dia
Que amanhece de bem com as estrelas!

Vem de braço dado com a lua,
Madrugada fora,
Dar boas vindas à estrela maior!
Traz na bagagem sonhos,
Anseios, projectos,
Quiçá vidas se gerando!

Promete sorrisos infindos
E, receando cuidados, canseiras ou dores
Avança, corajoso, o passo decidido!
Beija cada instante, apaixonado,
Da vida respirando-se, encantando-se…

Feliz é o dia
Que quase no fim, quase recomeço,
De volta ao reino dos sonhos
Cansado, anoitece mas…
… sempre amanhecendo!

Feliz é o dia, inteiro!…





Joaquim do Carmo
(a publicar)