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8 de ago de 2010

'Já não há domingos…'


Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.

Mia Couto

Um comentário:

  1. Que coisa maravilhosa...essa poesia suave e, ao mesmo tempo, intensa dos poetas de Portugal.
    Já conhecia alguns poetas, mas agora tive a chance de conhecer tantos outros através do seu blog!
    Beleza e sensibilidade, parabéns!

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