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23 de mai de 2009

'Fragmento de ode'


Nas cartas que se escrevem e não
chegam ao destino, o que ficou dito
tem o eco do que nunca será
esquecido: a voz que se ouviu numa
paragem do tempo, e atravessa
o centro da memória numa inquieta
procissão de sombras.
Pudessem os arcos do horizonte
abrir-se como um lamento de pombas;
ou este sonho fechar-se com o correr
da cortina de um último ato: nunca
os dedos amados irão soletrar
a frase do crepúsculo, soltando
da sua música um enxame de sílabas.
E o azul enche a garrafa do céu
para que as aves se embriaguem
no púlpito do infinito, arrastando
no seu vôo uma cinza de imagens.


Nuno Júdice

Um comentário:

  1. Neste instante só consigo balbuciar que adorei seu Blogs. Nele encontrei mais do que letras, sonhos, imagens, que apesar de não ser Portuguesa, julgo que o sangue dos meus Pais vibra no meu interior. Pois sinto Portugal a minha casa doce da Avo. Nesta imagem em especial os meus olhos deixaram rolar umas lágrimas, pois ela representa essas millares de cartas que umas vezes não chegaram, outras sim, más que nunca foram lidas por quem o deveria ter feito, Pois a diferença de nos nunca foram a escola. Vivi em primeira pessoa a vida do imigrante, o sonho de tornar ao seu remanso, e que muitas vezes se sente um estrangeiro no seu povo, Pois no transcorrer dos anos, os câmbios foram enormes e a memoria manteve-se impoluta no tempo.
    Um abraco desde este meu recanto.

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