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7 de fev de 2012

DA VOZ DAS COISAS


Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.

Fiama Hasse Pais Brandão

XIV


Deixa ficar a cinza nos cinzeiros
e as flores murchas nas jarras.
Não dês ordem às coisas.
A cinza ainda é resto de presença
e as flores recordação.


Maria Eugénia Cunhal
in ‘O Silêncio de Vidro’ (1962)

3 de fev de 2012

"EFEMÉRIDES"

(Ben Goossens)


Há como que
uma nudez desabitada
em cada palavra
chicotada na raiva
duma rosa descolorida.

Como uma bandeira
teimosamente adejando
lâminas passionais,

nódoas de sangue
manchando o cristal
de outros momentos.

Tantas palavras por dizer!
Tantos sonhos por viver!

Tanto gesto expontâneo
aprisionado,
nas grades douradas
da distância.

Tanta ânsia
desfeita pelo tempo
dum efémero tempo de ser.

Tanto para dar!
Tanto para receber!

Tanto fogo! tanto lume
no sibilino gume
em que morremos.

luizacaetano

DO LADO DE FORA DA VIDA


Sou a raiva e a descrença
não batam à minha porta!

sou a criança e o sonho!
a vontade e a garra!
a saudade e a farsa!

Não!
hoje eu não abro a porta!

Poço de contradições
que nem eu própria desvendo
nesta sinceridade inteira

Pairo no limiar das dúvidas
entre a paixão e desânimo

e no entanto,
o Sol aquece o meu corpo
e o céu continua azul...

Uma tristeza me alumbra
na penumbra do crepúsculo

Não,
não batam à minha porta!

Sou a criança e o sonho
do lado de fora da vida
alguém que quer e não sabe
esgotar até à última gota
a gota que me é devida.

Luiza Caetano

"VAZIO REDONDO"

(Tela de Edvard Munch)


Há um vazio redondo
que fere o silêncio e os gritos
como escarpas estilhaçadas ...

Há um abismo redondo
na poeira dos meus passos
um precipício de mêdo
tecido na rotina dos dias...

Há um esgar de ausência
em cada noite encostado
como se esperasse
um pássaro por amanhecer...

Um cansaço de acuçenas
amarelecidas pelo tempo
sangrando as esperas na arena,

as Primaveras, subitamente feridas,
se extinguem num vazio redondo
como um grito contra o muro.

luizacaetano

"PÉTALAS"


São as pétalas no caminho ,

São os sinais e o Carinho!

É o inventar
dum novo dia

É a seiva renovada

É a força da alegria
É a ilha da magia!

É o Ser! é o Estar!

Alvorecer de novo dia

É o dar! é o Receber!

São as pedras no caminho...

São os espinhos no carinho...

É o altar das nossas preces!
É o culto da minha Cruz!

São as pétalas do Caminho!

luizacaetano

1 de fev de 2012

'DIA DE HOJE'


Ó dia de hoje, ó dia de horas claras
Florindo nas ondas, cantando nas florestas,
No teu ar brilham transparentes festas
E o fantasma das maravilhas raras
Visita, uma por uma, as tuas horas
Em que há por vezes súbitas demoras
Plenas como as pausas dum verso.

Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
Bailando na doçura
E na amargura
De serem perfeitas e de serem breves.

Sophia de Mello Breyner Andresen
In Dia do mar, 1947